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Desilusão

Houve uma altura em que participava, todas as tardes, em reuniões para construir a capa do Diário de Notícias do dia seguinte. Como é natural, puxava a brasa à minha sardinha (os temas culturais) mas nem sempre tinha sorte. Toda a gente sabe: a inauguração de uma retrospectiva no CCB vale menos do que uma foto do Cristiano Ronaldo em tronco nu ou do que a notícia de mais um banco assaltado. Ainda assim, na linha cada vez mais ténue que separa os tablóides dos diários de referência, havia para mim uma regra simples para separar as águas entre os dois tipos de jornalismo: os diários de referência chamam sempre para a capa a morte de um grande artista ou o Prémio Nobel da Literatura; os tablóides, não.
Esta manhã, no quiosque do costume, preparei-me para confirmar mais uma vez a validade da minha regra. Olhei para a primeira página do DN e lá estava Le Clézio. Pequenino, num cantinho, mas estava. Olhei para a capa do Público e nada. Absolutamente nada. Nem imaginam como isto me entristece.



Comentários

2 Responses to “Desilusão”

  1. Luís Graça on Outubro 10th, 2008 13:59

    Calma, Zé Mário!
    Ainda temos forças para cantar a nossa revolta.

    Sinto-me como tu, mas há sempre um canto de rebelião que não nos conseguirão tirar (poema ‘Tombstone’, na coluna da direita do meu blogue http://www.gandaordinarice.blogspot.com).

    Posso sair disparado do water-slide Banzai (era o mais inclinado do Big One; ou era o Kamikaze?) direitinho à boca aberta de um tubarão branco. Mas prometo partir-lhe pelo menos um dente a pontapé, quando chegar a hora de mergulhar na escuridão dos seus ácidos estomacais.

    • Miguel on Outubro 10th, 2008 14:48

      sim, também foi uma desilusão; mas, convenhamos, a capa do ípsilon é a melhor capa que alguma vez se fez para o ípsilon.

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      «Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges