Despertares (2)

«Um dia de manhã, ao acordar dos seus sonhos inquietos, Gregor Samsa deu por si em cima da cama, transformado num insecto monstruoso.»

[A Metamorfose, de Franz Kafka, trad. de João Barrento, Quasi, 2003]

«Bunny não acordou de uma só vez. Um som (de quê, não sabia) atingiu a superfície do seu sono e afundou-se como uma pedra. O sonho esvaeceu, deixando-o desperto, preso, na cama. Virou-se, impotente, e enfrentou o tecto. Tinha rebentado um cano durante o Inverno anterior, e agora via-se o contorno de um lago amarelo.»

[Vieram Como Andorinhas, de William Maxwell, trad. de Rita Almeida Simões, Sextante, 2011]

«A manhã encontrou Benoni prostrado, corpo distendido, na cama, num quarto do primeiro andar, agora batido pelo sol, um quadrado de luz sobreposto à brancura do lençol. O despertar não foi nem suave nem brusco. Dois braços esticados irromperam de baixo das cobertas, depois curvaram-se sobre a cabeça imóvel. Seguindo o percurso inverso, contraíram-se novamente, e novamente desapareceram de vista. Um pudor persistente constrangia os movimentos de Benoni, não só de manhã, mas principalmente de manhã. Um pudor perante o mundo, mas haveria ainda pudor se não houvesse mundo.»

[Benoni, de Alexandre Andrade, Editorial Notícias, 1997]



Comentários

One Response to “Despertares (2)”

  1. Rui Almeida on Outubro 23rd, 2011 16:13

    «Acordou, abriu os olhos. O quarto pouco ou nada lhe dizia; ele estava profundamente imerso na inconsciência donde acabara de vir.»
    [O Céu que nos protege, Paul Bowles, trad. de José Agostinho Baptista, Assírio & Alvim, 1989]

«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges