Diário do Booker (2)

O mais difícil, já se sabe, é o arranque. Assim que a leitura entra em velocidade de cruzeiro, a coisa flui. Mas ao princípio a máquina leva algum tempo a aquecer. Talvez por isso, a minha meta para o primeiro dia só foi atingida ao fim de dois: chegar ao fim da primeira parte (Book One, como lhe chama o autor, Philip Hensher) de The Northern Clemency.
A designação “Livro Um” não é gratuita porque estas primeiras 160 páginas funcionam como um todo. Se o romance fosse apenas isto, já faria sentido. E embora ignore o que o resto da obra me reserva, esta abertura não engana: Hensher é um escritor de primeira água, com um domínio total das técnicas narrativas clássicas. Nada de pós-modernismos, nem uma sombra de invenções formais para encher o olho. Esta é uma ficção “old school”: sóbria, eficaz, de uma elegância estilística imaculada.
The Northern Clemency começa com uma festa, numa noite de Agosto de 1974, contada nos seus mais ínfimos detalhes. Uma festa para a qual a família Glover convida os seus vizinhos, sem que se perceba bem porquê. A mãe, Katherine, parece esperar alguém que acaba por não vir e é para esse alguém, percebe-se, que ela quis organizar a coisa. Eles vivem nos arredores de Sheffield (Norte de Inglaterra), numa rua de casas parecidas mas ligeiramente diferentes umas das outas, mesmo na fronteira entre o tecido urbano e o campo, neste caso charnecas desoladas e pântanos expostos ao vento. O principal tema de conversa, durante a festa, é a chegada iminente, um ou dois dias depois, dos novos proprietários da casa que fica diante da dos Glovers. Essa família chama-se Sellers, vem de Londres e depressa compreendemos que é entre eles e os Glover que a narrativa se estrutura, alternando as respectivas linhas narrativas.
Nesta primeira parte, porém, o foco está quase em permanência sobre os Glover. Há Katherine, a mãe que volta a trabalhar depois de anos de dedicação aos filhos, centro gravítico de uma família presa por arames. há Malcolm, o pai rezingão e fechado no seu casulo, funcionário de uma empresa de construção civil que só se realiza em actividades esdrúxulas, como a reconstituição de antigas batalhas (a cuja Sociedade pertence), ou supostamente pacificadoras, como a jardinagem (embora no seu caso o cuidar das plantas seja uma fonte de frustração). E há os filhos: Tim (nove anos), fanático por cobras, sobre as quais sabe tudo o que os livros lhe podem ensinar; Jane (14 anos), uma miúda à volta com as transformações da puberdade e o desejo de se tornar escritora (anda a escrevinhar um romance passado no século XIX); e Daniel (16), um rapazote que só pensa em sexo e em miúdas.
Sobre os Sellers sabemos muito menos. Bernie, o pai, convenceu Alice, a mãe, a trocar Londres pelo Norte, tendo em vista um excelente lugar na companhia eléctrica. Com eles vão os filhos: Sandra (14 anos) e Francis (11). A descrição da viagem num Simca verde (atrás da carrinha das mudanças) e dos contratempos por que passam até verem a sua mobília espalhada na rua, à porta da nova casa, numa cidade conhecida pelas suas metalurgias e minas de carvão, ocupa dezenas de páginas e chega a ser brilhante.
É justamente na manhã em que os Sellers se instalam que acontece a cena crucial, habilmente preparada por uns quantos flashbacks que nos mostram, por exemplo, o processo de fascinação de Katherine pelo seu patrão, um florista chamado Nick (o tal convidado que nunca chega a aparecer na festa). Embora nada de menos lícito aconteça entre eles, Malcolm convence-se de que a mulher está a ter um caso e sai de casa, sem dizer para onde. Transtornada, Katherine entra em desespero. Ao descobrir que Tim guarda uma cobra verdadeira debaixo da cama (segredo que não contara a ninguém), leva o réptil para a rua e esmaga-lhe a cabeça com o salto do sapato, à frente de toda a gente, sem se comover com os gritos do filho. Um dia depois, Malcolm volta para casa e tudo regressa aparentemente à normalidade (se é que podemos chamar normalidade à vida de uma família em piloto automático), embora seja óbvio que nada voltará a ser como era.

***

Na papelaria do bairro, pouso o livro na bancada enquanto peço o jornal. Olhando de lado, o rapaz diz-me: «Shiiii! Que livro tão grosso. Se tivesse que ler isso, levava a vida toda.» Digo-lhe que só tenho dois ou três dias para chegar ao fim e ele olha-me perplexo, um olhar não sei se de pena, se de admiração: «Isso para mim seria uma tortura maior do que sei lá o quê, até porque, sabe, vou dizer-lhe uma coisa: eu nunca consegui ler um livro até à última página, um único que fosse.»



Comentários

One Response to “Diário do Booker (2)”

  1. Joaquim Lucas on Setembro 28th, 2008 23:18

    A aventura dos livros. Sempre.

«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges