Diário do Booker (3)

No Livro Dois (pág. 163 à pág. 303) assistimos aos vários estilhaços da cena capital da primeira parte: aquela em que Katherine espezinhou a cobra do filho, libertando nesse acesso de raiva uma série de tensões acumuladas durante anos de uma felicidade familiar que não passava, como em tantos outros casos, de um simulacro.
Entre os Glover, o mais afectado foi, previsivelmente, o pequeno Tim. Na escola, torna-se agressivo, participa em estranhos jogos de violência entre rapazes (com qualquer coisa de bullying à mistura) e mantém uma relação obsessiva com um colega que parte uma perna num desses jogos, descobrindo-se no hospital que a fragilidade do osso é sinal de uma doença sem cura. Visitando-o todos os dias, Tim quer acompanhar, com um interesse mórbido, o trabalho da morte num corpo demasiado jovem.
Quanto a Katherine, acaba por concretizar o adultério que começou por a destruir quando era apenas uma ameaça, uma possibilidade. A quimera romântica desfaz-se no próprio instante em que deixa de ser uma quimera e isso levanta-lhe um peso de cima, permitindo a recuperação gradual do contacto com os outros, principalmente com Alice Seller, a nova vizinha que a apoiou no dia do descontrolo, que ouviu as suas confidências em estado bruto e que por isso mesmo (pela vergonha de se ter exposto daquela maneira) deixara de conseguir olhar de frente, olhos nos olhos.
Fora isso, assistimos à dificuldade de integração escolar dos vários miúdos e à amizade estranha (feita só de passeios juntos no regresso a casa) entre o rapaz mais velho dos Glover, Daniel, e a rapariga mais velha dos Seller, Sandra. Há também cenas que tornam mais definido o contorno de certas personagens, como Anthea Arbuthnot, a bisbilhoteira-mor da rua, fanática pela Família Real (ao ponto de ter ido a Londres assistir aos principais casamentos e funerais de Estado); Jane Glover, que decide tornar-se vegetariana militante, só para chatear; ou Malcolm Glover, o marido desconfiado que foi incapaz de desaparecer quando supôs que a mulher lhe era infiel. A qualidade da escrita mantém-se, mas Hensher não precisava de se dispersar tanto. Há cenas que se arrastam para lá do razoável e algumas das descrições, virtuosísticas mas narrativamente supérfluas (como o longo relato de uma das batalhas encenadas em que Malcolm participa), podiam ter sido eliminadas no trabalho de edição.
O Livro Dois-e-Meio funciona como um parêntesis e um salto no tempo. Agora estamos em 1983 e Jane, depois de se formar em Oxford, trabalha em Londres, onde partilha o apartamento com dois australianos. Um deles morre em circunstâncias terríveis (enforcado enquanto se masturbava com um cinto em volta do pescoço) e ela anda à procura de um novo inquilino para ajudar a pagar a renda, o que dá azo a algumas das páginas mais divertidas do livro. Entretanto, reencontra Francis Seller, o filho mais novo dos vizinhos da frente, num concerto em que se toca Bruckner. Os dois passeiam junto ao Tamisa, relembrando os anos de Sheffield e as frustrações de quem não faz aquilo que gostava de fazer. Por momentos, ergue-se a hipótese de uma relação mais próxima, Jane chega a ponderar convidá-lo para ocupar a vaga no seu apartamento, mas ao imaginar-se vinte anos mais tarde, com três filhos e as fanfarras de Bruckner a estremecerem as paredes, desiste da ideia.
Estou agora na página 353.



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«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges