Diário do Booker (5)

É durante a leitura do Livro Três (páginas 353 a 551) que se confirma o que a primeira parte do livro já deixava supor: quando comparado com a restante produção romanesca contemporânea, The Northern Clemency está uns bons furos acima da média. Não é um romance perfeito, longe disso, Hensher por vezes exagera na quantidade de elementos (psicológicos, sociais ou meramente geográficos) que pretende abarcar com a sua prosa elegante e meticulosa, mas há um sopro elegíaco que atravessa o livro, que nos empurra e nos faz vacilar, uma espécie de energia própria, um campo magnético activo, um je ne sais quois difícil de pôr em palavras mas que os leitores experimentados sabem ser a marca dos livros que não se esquecem ao fim de um mês.
Nesta longa secção do romance acontecem muitas coisas, grandes mudanças e crises existenciais, mas nem tentarei sequer resumi-las porque qualquer esforço para domesticar a complexidade desta trama narrativa, enfaixando-a no espartilho algo ridículo da sinopse com meia dúzia de linhas, seria tão ingrato quanto inútil. Quando avançar para a recensão do livro, tentarei dizer do enredo o que precisa de ser dito, em traços gerais, para situar a história. Se quiserem pormenores (e se os há, em avalanche) leiam directamente na fonte. Ou esperem pela tradução.
Ainda assim, deixo aqui alguns dos elementos principais. O estoicismo de Katherine vai ser posto à prova quando Nick, o antigo patrão e amante de uma só tarde, é acusado de ter montado um esquema de lavagem de dinheiro na sua loja. Chamada a depor em tribunal, a desesperada dona de casa teme que o julgamento traga à luz não tanto as golpaças de Nick, parte ínfima de uma engrenagem criminosa maior, mas sim a sua própria culpa (e tem razões para pensar isso). Hensher descreve magistralmente a forma como esta crise abala o casamento de Katherine com Malcolm. Mas melhor ainda é o retrato muitíssimo nítido do que foi a crise dos mineiros durante o governo de Margaret Thatcher, no Verão e Outono de 1984, vivida nos vários lados da barricada. Sem grande surpresa, vemos Tim, o filho rebelde dos Glover, mergulhar no activismo político: manhãs inteiras a ler Marx na biblioteca pública, t-shirts de apoio à greve dos mineiros e participação activa nos confrontos com a polícia.
É justamente uma dessas explosões de violência, à porta de uma mina de onde as autoridades «fascistas», como lhes chama Tim, tentam resgatar os trabalhadores fura-greves, que se acompanha na seguinte passagem:

«And as if in confirmation, the police – it might have been at a signal – seemed to break off their edgily cosy exchanges with the miners and, with not so much as a polite nod of farewell, drained away in one blue movement towards the gates and their heavy-sided vans. It was like the draining of a mass of water, the retreat of a sea before a tidal wave, and the miners, as if in shock and offence at the social affront, began to stand. First the miners at the front, the ones the police had been talking to, and then the whole crowd stood, rippling up the hill towards the back in a single wavelike movement. (…)
The police stand there, facing them in silence, and the men roar, and go on roaring; their weapons, if they thought to acquire them, now in their hands: half-bricks, stones, bottles, even a park railing like a javelin. They brandish them openly, and the police raise their hard plastic shields, each with a slash of sun reflected on it like a blazon.
(…) The hurling of rocks and bricks starts immediately, and even from Tim’s position the yelling, the thudding of bricks against the coaches is deafening; inside it must be terrifying. He catches himself, thinks again, yells louder. ‘Scabs! Scabs! Scabs!’ The police are moving forward, in their regimented way, pushing back the miners who are rushing forward to the vans; but the pressure is too much, the police are beeing pushed back themselves into the path of the coaches, which slow. There is redoubling of rage, fallen rocks and bricks being picked up and hurled again, and now the miners are at the sides of the vans, and starting to push and rock. In the hail of stones and rocks, Tim is pushed and pushes, the stink of – incredibly – the mineral stink of deodorant from a miner’s armpit in his nose, and all the time yelling in his ear. He is a few inches taller than most, and there are only three or four miners between him and the van’s side. All at once he sees, through perhaps a scratched-away patch of paint, a face – no, really just an eye, and one with clear terror deep in it.»

***

Vantagem de acordar, ainda de madrugada, para ler de candeeiro aceso enquanto a casa dorme: às tantas, olhar pela janela e ver o céu vermelho sobre Lisboa.

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Comentários

2 Responses to “Diário do Booker (5)”

  1. AnaMar on Outubro 2nd, 2008 7:24

    Eu que adoro ler, e tenho a mesa de cabeceira cheia de livros, porque leio sempre mais do que um ao mesmo tempo, só no Verão consigo uma imagem dessas…

  2. Tó Almeida on Outubro 2nd, 2008 9:55

    Por tudo o que o José Mário Silva tem comentado acerca deste livro, estou desejando que o mesmo seja traduzido para poder ter o prazer de o ler.

    Parabéns pelo Blog, bem elaborado, actualizado e muito interessante.

«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges