Diário do Booker (6)

Não há nada mais frustrante do que chegar ao fim de um romance com 738 páginas e perceber que se trata, afinal, de um enorme castelo de cartas prestes a ruir ao mínimo sopro. No Livro Quatro desta saga familiar passada em Sheffield, fecha-se o arco narrativo: depois da chegada dos Sellers, em 1974; da era Thatcher e da greve dos mineiros (1984); é o tempo dos telemóveis, dos centros comerciais, das desilusões definitivas (1994). Philip Hensher mantém a sua estratégia ficcional, que consiste em multiplicar personagens, cenários e picos dramáticos. Infelizmente, essa proliferação é caótica. Estamos sempre à espera que os muitos fios soltos se atem no fim, mas esperamos em vão, porque as últimas 100 páginas, em lugar de esclarecerem o que havia por esclarecer, baralham tudo de novo. Ou então fecham as várias linhas do enredo com soluções óbvias, banais, deitando a perder as muitas subtilezas com que até ali Hensher moldara a vida das suas criaturas. Em dado momento, uma dessas criaturas, Francis, está a fazer as malas para uma viagem a Roma (que não chegará a acontecer) e tira da estante «one, then a second fat Russian novel». A saber: O Idiota e Almas Mortas. Nada disto acontece por acaso. Numa das badanas, afirma-se que o livro foi inspirado «by the expansive scale and webs of relationships of the great nineteenth-century Russian novels». O problema é que Hensher, já se percebeu, está muito longe de ser um Dostoiévski ou um Gógol.
Quem tudo quer, tudo perde. E o que poderia ser um belíssimo romance de 300 páginas, feitos os devidos cortes por um bom editor, transforma-se num épico pesadão que nem sequer cumpre as suas promessas (a crise dos mineiros, um dos supostos temas centrais, dissolve-se rapidamente e o “retrato” dos anos Thatcher acaba por não passar de uma fotografia tipo passe, tremida e com pouco contraste). Há personagens que ficam penduradas – Nick e, até certo ponto, Katherine –; outras transformam-se em caricaturas (Tim); perdem espessura (Daniel); desaparecem de vista (Jane); ou exibem a sua incongruência (Sandra). Mesmo os momentos mais fortes, como a magnífica abertura do Livro Quatro (a paixão obsessiva, para não dizer nabokoviana, de Nick pela filha adolescente do seu patrão) ou a comoventíssima passagem em que marido e filho acompanham Alice durante o seu coma (provocado por uma hemorragia cerebral), mesmo esses momentos em que Hensher mostra aquilo de que é capaz acabam por perder fulgor, ofuscados pelo final patético que o escritor escolheu para o seu mosaico de histórias.
O desastre começa na morte de Tim, que viaja até Sydney para confrontar Sandra com a memória de uma iniciação erótica que o traumatizou: ele, aos dez anos, rosto enfiado entre os seios da então melhor amiga de David, o irmão mais velho. Sandra nem sequer se lembra da cena e desvaloriza a dor de Tim (mas, felizmente para ela, não a sua raiva), conseguindo por milagre evitar um ataque sexual que parecia iminente. Destroçado, Tim caminha até à praia, entra nas águas e avança morte adentro. Se isto já era suficientemente déjà vu, Hensher vai ainda mais longe nas duas últimas páginas, quando Daniel, ao comprar livros a metro para o seu restaurante, encontra um romance novo no meio dos usados. A mulher pergunta-lhe «What’s it about?» e ele responde: «It’s sort of about people like us, I think.» Estão a ver onde é que isto vai parar, não estão? As palavras iniciais desse livro coincidem com as palavras iniciais de The Northern Clemency, claro. E eis de repente o livro dentro do livro, a autoreferencialidade, o mais estafado dos efeitos metaliterários de mise en abîme. Embora desiludido por ver o castelo de cartas ruir desta forma inglória, eu até gostava de ser mais clemente (para evocar o críptico título do livro) mas assim não dá.

***

Depois da surpresa de ver Salman Rushdie fora dos seis finalistas, a casa de apostas Ladbrokes colocou The White Tiger, do estreante Aravind Adiga, no topo da lista de favoritos, com o romance de Linda Grant logo atrás. E são justamente esses dois livros que vou ler a seguir.



Comentários

One Response to “Diário do Booker (6)”

  1. Bibliotecário de Babel – Diário do Booker (8) on Outubro 8th, 2008 10:13

    […] do sabor amargo que o desfecho de The Northern Clemency me deixou, eis um livro galvanizante, muito mais selvagem e à beira do abismo (mas, por estranho […]

«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges