Diário do Booker (7)

Ao fim de 194 páginas lidas num ápice, é forçoso dar razão a Andrew Holgate, do Sunday Times (citado num dos blurbs da contracapa):

«Unlike almost any other Indian novel you might have read in recent years, this page-turner offers a completely bald, angry, unadorned portrait of the country as seen from the bottom of the heap; there’s not a sniff of saffron or a swirl of sari anywhere… The Indian tourist board won’t be pleased, but you’ll read it in a trice and find yourself gripped.»

É verdade que o livro se lê num abrir e fechar de olhos, é verdade que este retrato da Índia abdica do exotismo (ao ponto de fazer daquele adjectivo, «unadorned», um understatement), é verdade que não há por aqui referências ao açafrão (embora o mesmo não se possa dizer do caril e dos saris, que aparecem pouco, mas aparecem). O importante, porém, está no início da primeira frase. Ao contrário do típico romance indiano candidato ao Booker, esta não é uma história séria sobre as idiossincrasias culturais do sub-continente, nem uma reflexão sobre os traumas pós-coloniais, nem sequer a tão batida história de amor com casamentos por conveniência e segredos passados de geração em geração. Muito pelo contrário. The White Tiger é uma espécie de parábola, divertida e violenta, sobre o lugar da Índia no mundo de hoje. Ou, se quiserem, um olhar sobre o lado podre do suposto milagre tecnológico indiano. Que o protagonista seja um «empreendedor» sem escrúpulos e assassino confesso, tresloucado ao ponto de contar a sua história tortuosa, como se fosse um exemplo a seguir, ao primeiro-ministro chinês (of all people), diz tudo sobre o carácter burlesco da narrativa e o seu tom ostensivamente irónico, desapiedado e sarcástico.
Podia resumir-vos aqui os principais traços da aventura de Balram Halwai, desde as ruas miseráveis e escuras de Laxmangarh até aos néons de Nova Dehli e Bangalore, mas prefiro guardar a sinopse para amanhã. Agora, se me permitem, vou acabar o livro, que está ali a chamar por mim como qualquer page-turner que se preze.



Comentários

2 Responses to “Diário do Booker (7)”

  1. Pop Paulo on Outubro 14th, 2008 21:36

    Foi este!!!!

  2. Vem aí o tigre | Bibliotecário de Babel on Fevereiro 20th, 2009 17:25

    […] Tigre Branco, de Aravind Adiga, vencedor do Man Booker Prize 2008, de que falei aqui, aqui e aqui, vai para as livrarias a 3 de Março, com chancela da Presença. A capa é […]

«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges