Diário do Goncourt (2)

De Atiq Rahimi, um escritor afegão radicado em França desde 1985, já conhecia os dois romances publicados em Portugal pela Teorema: Terra e Cinzas (2001) e As Mil Casas do Sonho e do Terror (2004). Em ambos recordo um estilo muito lírico, entrecortado e cinematográfico, com cenas curtas e descrições precisas. Rahimi é também cineasta, tendo adaptado e filmado o seu primeiro romance, que apresentou no Festival de Cannes de há quatro anos.
Syngué sabour – Pierre de patience (P.O.L.), embora escrito directamente em francês (os outros foram traduzidos do persa), não traz grandes novidades estilísticas, mas revela um domínio ainda mais apurado das formas narrativas, que em Rahimi estão sempre enraízadas nas tradições, sobretudo orais, do seu país de origem.
Dedicado a uma «poeta afegã selvaticamente assassinada pelo seu marido», este romance é quase um manifesto feminista, um grito de denúncia contra os maus tratos a que são submetidas as mulheres no mundo inteiro – e não apenas nas sociedades islâmicas. Rahimi coloca, de resto, a acção da história «algures no Afeganistão ou noutro lugar».
A narrativa começa com uma espécie de zoom. Estamos num quarto pequeno, rectangular e vazio. Na parede, um punhal (kandjar) e o retrato de um homem jovem, de bigode. Deitado no chão, sob o retrato, está o mesmo homem, mas velho, esquelético, inerte e com um catéter espetado no braço, por onde corre um líquido incolor. Finalmente, surge uma mão feminina, pousada sobre o peito do homem, acompanhando a sua respiração, enquanto a outra mão se atarefa com as contas de um rosário. A mulher lê o Corão e repete, como um mantra, o décimo sexto nome de Deus: «Al-Qahhâr». E é o décimo sexto nome porque faz dezasseis dias que o homem, o seu marido, está naquele estado catatónico, entre a vida e a morte, com uma bala enfiada na nuca.
Definido o huis clos, Rahimi narra com uma minúcia que chega a ser exasperante o quotidiano da mulher: lavar o marido, pôr-lhe as gotas de colírio nos olhos, mudar as embalagens de soro (e, quando este acaba, enchê-las com água açucarada), tratar das duas filhas pequenas que não compreendem o silêncio e a imobilidade do pai.
À volta da casa, a cidade está em guerra. Explosões aleatórias, bombardeamentos, rajadas de Kalashnikov. E a mulher tenta ignorar esse caos, acertando os seus gestos e movimentos pela respiração cadenciada do marido. Mas aos poucos a dedicação feminina ao herói ferido, ao homem brutal que sempre preferiu a frente de batalha à vida familiar, vai sendo minada pelo desespero e pelo desamparo. A mulher começa a partilhar as suas memórias, os seus segredos, os seus pesadelos e a ajustar contas com o homem, dizendo o que nunca lhe seria permitido dizer se ele estivesse acordado e lúcido.
Na mitologia persa, chama-se syngué sabour a uma pedra mágica diante da qual as pessoas confessam as suas infelicidades e sofrimentos. A pedra escuta o que lhe é dito, absorve toda a tristeza e um dia parte-se, libertando quem a ela se entregou. É isso que acontece aqui. O marido catatónico é o syngué sabour da mulher, o pretexto para reflectir sobre as violências que sobre ela foram exercidas, sobre a memória de um casamento falso e sobre as faces mais secretas da sua vida íntima (incluindo a sexualidade). No fim, previsivelmente, a pedra parte-se. Isto é, o marido regressa do limbo onde vegetava, mas o desenlace é tudo menos libertador.
Com uma toada encantatória, Rahimi consegue erguer uma história cheia de simbolismos. Demasiados, até – pelo menos para o meu gosto. E não é só a saturação lírica que se torna por vezes cansativa. Há nesta escrita um voluntarismo demasiado centrado na urgência da denúncia e menos no equilíbrio dramático da obra, um problema que já detectara nos anteriores romances. Syngué sabour não é ainda o grande livro que Rahimi pode um dia vir a escrever, mas está mais próximo.



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«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges