Dias da transição

nada tenho

Nada Tenho de Meu
Autores: João Paulo Cuenca, Miguel Gonçalves Mendes e Tatiana Salem Levy
Editora: Jump Cut
N.º de páginas: 134 (+ DVD)
ISBN: 978-989-98769-0-3
Ano de publicação: 2013

Em 2012, Miguel Gonçalves Mendes, realizador de dois documentários sobre escritores – Autografia, em torno de Mário Cesariny (2004); José e Pilar, retrato intimista de Saramago (2010) –, voltou a aproximar-se da literatura. Em Macau, no festival Rota das Letras, encontrou dois ficcionistas brasileiros da sua idade: João Paulo Cuenca (com dois romances editados em Portugal, na Caminho) e Tatiana Salem Levy (publicada pela Cotovia e Tinta da China), ambos seleccionados pela revista inglesa Granta, no seu número dedicado aos vinte melhores autores jovens do Brasil. Aproveitando a estadia no outro lado do mundo, os três decidiram deambular pelo Sudeste asiático. De Macau passaram ao Vietname, depois ao Cambodja e à Tailândia, com regresso ao ponto de partida, via Hong Kong. Num processo criativo meio caótico, entre textos e filmagens, foi nascendo um «diário colectivo de viagem», uma espécie de «poema visual», um «quase cadáver esquisito» que se fixou numa série com 11 episódios e num livro.
O livro segue a estrutura do filme de Miguel Gonçalves Mendes, apropria-se das suas imagens, dos seus fotogramas (numa paginação que remete para as anacrónicas fotonovelas), mas não é um mero espelho em papel do que podemos ver no DVD. Há elementos da série que desaparecem no livro – e vice-versa. Certas frases soltas que vamos ouvindo, tanto de Tatiana como de Cuenca, ganham outro sentido quando as descobrimos nos textos completos de onde foram retiradas (prosas e notas de viagem reunidas no fim do volume). Ou seja, Nada Tenho de Meu assume-se como um verdadeiro objecto artístico multimedia: não basta ver, é preciso ler; não basta ler, é preciso imaginar. E depois preencher os espaços em branco de um relato pulverizado, em que a realidade se transforma sistematicamente em matéria de ficção, enquanto paira uma ameaça de apocalipse (há um asteróide chamado Portugal em rota de colisão com a Terra).
Na origem de tudo está talvez uma estadia de MGM em Macau, no ano de 1999, para assistir ao chamado «dia da transição», quando o poder no território passou de Portugal para a China. As transições tornam-se depois pessoais, à medida que os três criadores se reinventam como personagens uns dos outros, ou de si mesmos. Tatiana ficciona Miguel, os seus amores, a sua tristeza, a sua falhada busca de sentido. Por outro lado, também se questiona e à sua escrita, enquanto busca em vão sinais de Marguerite Duras nas margens do rio Mekong. Cuenca ensaia uma estética do afastamento, da perda, da desaparição. E resume de forma lapidar o que une as pontas deste mosaico imperfeito mas fascinante: «Aquilo que somos, o que vemos, o que sentimos, não tem a mínima ligação com o real. O projeto será sobre isso. Sobre projeções. Trata-se de projeções daquilo que supomos viver e sentir.»

Avaliação: 6,5/10

[Texto publicado no suplemento Actual do jornal Expresso]


Episódio n.º 4 de Nada Tenho de Meu



Comentários

One Response to “Dias da transição”

  1. J. F. Oliveira on Janeiro 31st, 2014 18:07

    Fiquei com a sensação de que a nota (relativamente baixa) e o tom do texto (elogioso) não casam muito bem. Afirma que este é um “mosaico imperfeito mas fascinante”, mas não chega a abordar as imperfeições em questão.
    E digo isto sem colocar em causa os 6,5 valores…
    A verdade é que tenho seguido este projecto com interesse e anseio saber se vale mesmo a pena investir no livro/DVD.

    Um abraço

«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges