Dinis Machado (1930-2008)
O autor de O Que Diz Molero foi-se embora hoje, discreto, de mansinho, tão ao seu jeito. Havia nele um sentido lúdico e uma desfaçatez irónica que serviam apenas para disfarçar, quando disfarçavam, o poço de melancolia que havia lá por trás. Mesmo nos seus romances policiais escritos à pressa e à americana (com pseudónimo camone e tudo), livros alimentares mas nem por isso menos dignos, mesmo nesses sucedâneos de Dashiell Hammett, inventados por um jornalista faz-tudo que papou muitos films noirs nas matinés do Bairro Alto, havia essa espécie de sombra inclinada e abrupta. Podem encontrar um exemplo neste excerto de «monólogo maynardiano» (conversa do assassino profissional Peter Maynard consigo mesmo), quase no fim do reeditado Mão Direita do Diabo (Assírio & Alvim), que li há poucas semanas e sobre o qual escrevi para o número da revista Ler que deve estar quase a chegar às bancas:
«Não estás quieto, Maynard, tens um bichinho dentro de ti, ou então é a febre, a que tens no corpo, e todas as outras febres, as de descobrires coisas que não devias descobrir porque te fazem mal, porque afinal tu és pura e simplesmente o tal rapazinho que nunca deixaste de ser, trémulo perante as coisas, eternamente desabituado de olhar a verdade de frente, e agora já velho, de cidade para cidade, olhando as paisagens que encontras quando te voltas para dentro, os lugares mais desabitados do mundo atrás dos teus olhos fechados. Merda para isto, a febre há-de passar, e então tudo será mais simples, isso de te sentires desgraçado é muito menos profundo do que parece, de resto até acho que resolvo o assunto numa penada e nunca mais penso nisso. Que esperas tu das pessoas, Maynard? Olha para ti próprio e vê lá o que vês. Não olhes, rapaz, não penses nisso, assobia, olha para as pernas das garotas, limpa a arma e segue em frente.»
O velório de Dinis Machado está a decorrer esta noite, na Igreja da Encarnação (Chiado). O funeral sai amanhã à tarde para o cemitério do Alto de S. João, onde o corpo será cremado, pelas 19h00.
Fotografia: Augusto Cabrita
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Não li Dinis Machado e gosto deste monólogo Maynardiano. Óbvio, clássico, pôr na boquinha do personagem coisas que são parte integrante do autor (narrador) e tantas outras vezes não: são caracterizadas personagens que são antítese do escritor ou do seu universo vivencial. Mas, e como diz um amigo meu psicólogo de natureza e de profissão, ‘anda lá sempre qualquer coisinha’. (Para não irmos buscar Freud, que esse cava mais fundo e por vezes também inventa onde não existe). Se procurarmos bem quer no romance ou em outros escritos há sempre facetas (embora mínimas) da mão criadora, do gosto criador. Há que ter sempre presente a frase do outro -tão citada e de si própria exausta, mas um indicador a meu ver sublime- “Madame Bovary c’est moi”. E por mim tudo bem, ou tão exterior a si próprio seria o acto de escrever? Quando sabemos que em profissão alguma tal afastamento ou ausência presencial é possível. C.
Mais um criativo mal amado neste país