Do alto de Penacova

Do alto de Penacova D. Pedro observa
lá em baixo as tropas de Bragança o irmão
bastardo. Vêm cansados sujos desprevenidos.
Pode escrever-se um poema nesse momento

não haverá outro assim para o Infante
acabar com boatos e depois tranquilamente
dizer ao jovem rei que não pretende a coroa
mas apenas respeito pelo modo

como regente serviu sem ambição o reino.
Pode escrever-se um poema nessa hora
com D. Pedro pôr fim à intriga e derrotar a inveja
o mal dizer a mesquinhez e a mentira

essas velhas doenças que são o cancro
de Portugal. Mas de súbito por um escrúpulo moral
um supremo desprendimento que será talvez
um narcisismo do avesso ou (o que é o mesmo)

um excesso de confiança um desinteresse
ou uma incontrolável melancolia
D. Pedro não segue o impulso inicial
nem ouve os que lhe dizem que é preciso

atacar sem demora. O poema escreve-se
nessa razão misteriosa que leva o Infante a retirar-se
sem saber ou talvez sabendo que ao fazê-lo está
a retirar-se da própria História e a permitir

que sejam outros a fazê-la e a escrevê-la. Ninguém
saberá nunca porque hesitou naquela hora. O poema
escreve-se do alto de Penacova e nessa
hesitação fatal em que D. Pedro

inverteu o sentido do futuro. O seu e o nosso.
Talvez acima de tudo ele gostasse
não propriamente do poder mas de
podê-lo ter e não o querer. O poema escreve-se

com D. Pedro no alto de Penacova
nesse instante de renúncia em que ele diz
que mais do que poder o que é preciso
é outro modo de ser e outro país.

[Segunda das Sete Partidas de Manuel Alegre, Edições Nelson de Matos, 2008]



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«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges