Do Millennium bcp para a Guimarães

Paulo Teixeira Pinto

No princípio de 2008 ficou a saber-se que Paulo Teixeira Pinto, ex-CEO do Millennium bcp, saíra da administração do banco uns meses antes, enviado por uma junta médica para a mais dourada das reformas: dez milhões de euros (sim, 10.000.000) do acerto de contas “referente ao exercício de 2007″, mais 500 mil euros de pensão anual vitalícia. Isto no fim de uma ligação profissional à empresa de apenas 12 anos (só um sexto dos quais no cargo de presidente executivo) e depois de deixar o bcp no estado em que deixou.
Escândalos e faltas de pudor à parte, muita gente deve ter pensado em que é que Teixeira Pinto, liberto da pressão da actividade bancária (tão instável por estes dias), iria aplicar o seu tempo e o seu dinheiro. Aos 46 anos, tem de sobra estes dois factores que tanto condicionam — pela falta de um, de outro ou de ambos — a vida dos portugueses normais, afogados em dívidas e numa crise que não abranda. Deixadas para trás as reuniões de accionistas, bem como os cilícios da Opus Dei, a que se dedicará agora Teixeira Pinto? A resposta não deixa de ser desconcertante: à literatura.
Segundo notícia avançada ontem pelo Diário de Notícias, Teixeira Pinto comprou a Guimarães Editores, passando a deter cem por cento do capital. A ideia não é fazer negócio mas criar “uma casa da cultura”, diz o novo proprietário. Até porque “se eu quisesse fazer uma aplicação financeira ou com perspectivas de rentabilização económica escolheria outra área”. Pode por isso ficar descansado Miguel Pais do Amaral: não se prevê a compra de mais editoras ou a criação de um grupo rival da LeYa.
Para já, sabe-se que surgirá em breve um novo logótipo e imagem gráfica, que a linha editorial será mantida no essencial (embora o catálogo passe a incluir obras no campo da “estética”: pintura, fotografia, design e arquitectura), que está prevista a publicação da obra completa de Agustina Bessa-Luís, que a livraria da Rua da Misericórdia vai ser transformada num “espaço mais apetecível” (incluindo cafetaria com acesso wireless à internet) e que a metamorfose da Guimarães estará terminada a tempo da Feira do Livro, dentro de dois meses.
Esta pulsão bibliófila só surpreenderá quem anda muito distraído na leitura da imprensa. Porque o empenho literário de Teixeira Pinto salta à vista, todos os sábados, na dupla página que a revista NS (distribuída com o DN e o JN) lhe concede. Um verdadeiro mimo que começa logo na ironia do nome — Cálculo sem folha — dado àquele generoso espaço de opinião.
E de que fala o ex-banqueiro no seu cantinho? O último número da NS (22 de Março) permite-nos ficar com uma ideia. A rubrica divide-se em três textos, dois aforismos, uma citação (Madre Teresa de Calcutá) e um poema (cá está a ambição literária). Um dos textos aborda uma tela de Berthe Merisot que pode ser vista no Museu de Orsay, outro os dez anos da Ajuda de Berço e o principal, com direito a cercadura, pertence à série “da cor das palavras”. O vocábulo em causa, desta vez, era pobreza, essa “palavra de cor âmbar”. Deixo-vos um excerto:

«Quem mais sofreu na carne a ajuda e sentiu na alma o sofrimento dos pobres extraiu uma conclusão definitiva. A qual sempre me impressionou. E essa confessa-se da maneira mais simples que é possível. Assim: o que seria dos pobres se não fossem os pobres!
De tão comum que é, até parece (quase) normal que sejam precisamente aqueles que menos possuem que, por norma, sejam também os mesmos que sempre se provam dispostos a dar. Dir-se-á que tal se há-de justificar pela presunção segundo a qual quem tem pouco, pouco valor lhe há-de dar também. Não me parece. Creio mesmo que é por terem mesmo muito pouco que os pobres reconhecem um valor extraordinário a essa pequena parte que é a sua. E que é exactamente por lhe conferirem a tal importância que os pobres se dispõem a ajudar aqueles que ainda têm menos. Talvez isto seja pouco lógico à luz dos critérios de racionalidade económica — mas faz todo o sentido segundo os ditames da generosidade.»

Convém não esquecer: esta defesa da generosidade dos pobres — feita numa prosa confusa, mal articulada e reveladora de um péssimo domínio da língua portuguesa (o que é isso de sofrer na carne uma ajuda?) — vem assinada pelo ex-CEO que não teve pejo em receber os tais dez milhões de euros, mais a pensão vitalícia. Depois disto, estou mortinho para saber qual é, para Teixeira Pinto, a cor da palavra hipocrisia.
Já os aforismos revelam o mais inesperado dos filósofos.
Ora aqui está um:

Nós e os Nos
O que faz de cada um de nós um indivíduo é exactamente ser in-dividuo, ou seja, não divisível, uno e único

O outro não lhe fica atrás:

do estado do tempo
Atenção: em cada vida, há sempre múltiplas vidas, mas cada homem é ainda e sempre o mesmo desde o primeiro sorvo de ar até ao último sopro sob os ossos

Esqueçam Pascal. Esqueçam Spinoza. Isto é que é profundidade de pensamento. Repararam na subtileza daquele “último sopro sob os ossos”? Não foi sobre os ossos, não foi à volta dos ossos, não foi entre os ossos, foi mesmo por baixo dos ossos. Até me arrepiei.
Mas o poema consegue ir ainda mais longe:

lado reverso

pensar
e não sentir

sentir
e não saber

saber
e não perceber

perceber
e não dizer

dizer
e não poder

poder
e não conseguir

conseguir
e não perecer

perecer
e viver

Esqueçam Pessoa. Esqueçam Sophia. Eis o Bardo que nos fazia falta, o nosso Wallace Stevens. O único poeta que escreve poemas, todas as semanas, na imprensa portuguesa.
Se isto não é um sinal do fim dos tempos, anda lá perto.



Comentários

19 Responses to “Do Millennium bcp para a Guimarães”

  1. fallorca on Março 28th, 2008 17:07

    Depois disto, só nos resta um caminho – paupérrimo mas colorido, com o esqueleto protegido das correntes de ar – abandonar definitivamente as teclas.

  2. lia on Março 29th, 2008 0:31

    Para além de você não gostar de TP (e isso é indisfarçável);
    E de caricaturar os seus dotes poéticos e metafísicos, em nome dos quais ele se terá apropriado das ditas páginas NS (nunca li, mas a acreditar na amostra, TP escreve realmente “sem cálculo” nem talento);

    – O que é que o incomoda acerca da compra da Guimarães Editores? Alguma coisa?
    Acha mesmo que é um mau serviço?

    No seu lugar eu aplaudiria, mesmo sem prescindir das farpas!

    Mas em Portugal é-se assim, não é?
    Preferimos ficar com os ossos a ter que comer o bife-objecto da nossa inveja.

    Really small

  3. José Mário Silva on Março 29th, 2008 9:54

    lia,

    A verdade é que este post acabou por se tornar uma espécie de “dois em um”. Eu já tinha pensado escrever sobre as páginas de PTP na NS. Como entretanto surgiu a notícia da compra da Guimarães, matei os dois coelhos de uma cajadada. Quanto à sua pergunta, não há nada que me incomode na compra da Guimarães. Teixeira Pinto está no seu direito e acho que é uma forma perfeitamente legítima e louvável de aplicar a sua fortuna, desde que não descaracterize o catálogo da editora. Espero é que o ex-banqueiro encontre bons editores que trabalhem com ele, porque a sua sensibilidade literária é muitíssimo limitada (como se prova justamente pelos aforismos e poema).

  4. Miguel on Março 29th, 2008 12:47

    E já agora, refira-se o director editorial que vai ficar à frenta da editora, sinal daquilo que podemos esperar da nova Guimarães, que vai ser, nada mais nada menos, que Miguel Freitas da Costa, esse intelectual de primeira água que foi um dos defensores de Salazar no programa Grandes Portugueses, e jornalista do DN com artigos, na minha modesta opinião, da maior aridez e futilidade intelectual.

  5. Victor Abreu on Março 29th, 2008 14:24

    Qual é o problema de se ser defensor de Salazar? A esquerda só autoriza que se seja defensor de Cunhal, Vasco Gonçalves e Mário Soares? Quanto a PTP, antes ser ele a comprar a Guimarães, do que mais um grande grupo que trata os livros como se fossem batatas ou parafusos, e poria a venerável embora decadente editora a publicar mais lixo igual ao que enche as nossas livrarias. Sobre os dotes literários do novo dono da editora, reconheço que são fracos. Mas quantos “poetas” e “escritores” andam por aí a ser incensados pelos amigos e comparsas de letras, e críticos avulsos, e não passam de medíocres escrevinhadores de vulgaridades e opacidades?

  6. José Mário Silva on Março 29th, 2008 16:07

    “Qual é o problema de se ser defensor de Salazar?”

    É de facto extraordinário. Há uns anos, poucas pessoas teriam a coragem de fazer esta pergunta. Agora, depois de todas as lavagens, revisionismos e concursos de celebridade, já ninguém se espanta, já ninguém se indigna.
    Se o que o leitor Miguel diz se confirma, o benefício da dúvida rapidamente passará a prognóstico reservado. Cá estaremos para ver o rumo que a Guimarães vai tomar.
    Teixeira Pinto afirmou que não está nisto pelo dinheiro, mas não me surpreenderia que aproveitasse a editora como canal de propaganda para a ortodoxia da Opus Dei, para o ideário mais conservador que imaginar se possa, para a Causa Real, etc.

  7. João on Março 29th, 2008 16:25

    E se aproveitar? Há estupendos pensadores monárquicos e católicos. Um deles o T. S. Eliot que, pasme-se!, tem um livro de ensaios publicado na Guimarães.

  8. Victor Abreu on Março 29th, 2008 16:50

    UI, que medo, os salazaristas, o ideário conservador, a Causa Real… tantos papões para assustar o povinho… E já agora, além de ser defensor de Salazar, sou-o também de Franco e de Pinochet. Ui que medo, vem aí o fascismo! E vem de metro, que é mais rápido.

  9. luís gonçalves on Março 29th, 2008 17:22

    Mil vezes o Teixeira Pinto, mesmo mau escritor, do que aqueles ignorantes e arrogantes tipos da Media Capital e quejandos, que vão dar cabo do que ainda resta das editoras portuguesas decentes. Ao menos o TP tem interesses culturais. Os outros, só têm interesses financeiros. Conheço alguns desses meninos por motivos profissionais, e são intelectualmente desoladores. Só pensam em investimentos, lucros, automóveis, “gajas” e em ganhar poder nos media, nos mercados e na política. Projectos culturais: zero.

  10. Miguel on Março 29th, 2008 18:05

    Caro Vitor Abreu,

    Qual é o problema de ser admirador de Salazar!? O problema de se ser admirador de Salazar é isso implicar ser defensor de valores que são contrários àqueles que, precisamente, o permitem fazer as declarações que faz com toda a liberdade e sem consequências de maior. Mas, para além disso, significa ser defensor de práticas desrespeitadoras da dignidade humana. E só por ignorância ou desrespeito da memória das víctimas do salazarismo é que não pode estar a perceber qual é o problema de ser defensor do salazarismo.

    Quanto aos receios de estar a chegar o fascismo, e de metro pelos vistos, não tenho perdido o sono porque estou convencido que a perspicácia (para não dizer inteligência) média dos portugueses está uns pontos largos acima da sua, caro Vitor Abreu; por isso é que a esmagadora maioria deles nem sequer se deu ao trabalho de votar em qualquer um dos potenciais Grandes Portugueses, porque souberam dar a devida importância àquilo que um programa de televisão representa para a definição daquilo que deve ser ou não a memória colectiva de um país. Não é aí que ela se constrói, nem são pessoas como o senhor, que se esforçam por branquear a memória, que a compreendem e sequer a entendem.

    Mas voltando ao essencial. Caro Mário Silva, não tenho a mínima dúvida que a Guimarães editora servirá precisamente para canal de comunicação para os projectos em que Paulo Teixeira Pinto se está agora a envolver que, diga-se, tratando-se da defesa da monarquia, considero assas anódinos.

    Agora uma questão para o Luís Gonçalves: o TP tem interesses culturais!!?? Digam-me um, para além da compra da Guimarães editora – considerando aqui que essa compra representa um interesse cultural. Diga-me em que projectos editoriais é que ele já se envolveu anteriormente?

  11. luís gonçalves on Março 29th, 2008 18:16

    Quando digo interesses culturais, quero dizer que é pessoa que lê, que gosta de artes plásticas (e pinta, sabia?), que se interessa pelas artes e por assuntos de cultura em geral. Ou os banqueiros não estão autorizados a tê-los, só os “outros”, os da “cultura”, que não lidam com dinheiro e até nem gostam nada dele, até dão aos pobres o que têm?

  12. joaninha on Março 29th, 2008 18:21

    Por amor de Deus! Estão a ser destruídas algumas das mais importantes editoras portuguesas, a sair delas, ou a ser afastados, pessoas de visão e de bom-gosto, e ainda há gente preocupada pelo PTP ter comprado a Guimarães e poder ter um projecto político para a editora? Que miopia!

  13. jdias on Março 29th, 2008 20:01

    Este post é uma vergonha.

    O José Mário Silva faz o mesmo tipo de exigências morais e de qualidade literária a todos os proprietários de editoras, ou só ao Paulo Teixiera Pinto?

    E, já agora, já olhou bem para a sua própria produção literária?

    Já percebemos: só os nossos é que são bons. E preferimos ser subsidiados pelo Estado do que ver um investidor privado a dedicar-se à cultura. Sim, porque esses capitalistas não têm qualquer sensibilidade artistica (uma coisa aliás exclui necessariamente a outra) e nunca editarão os verdadeiros grandes autores, ou seja, os meus amigos.

    Penso que depois deste post ficamos esclarecidos sobre os seus critérios enquanto critico literário e suposto homem de cultura.

  14. aviadort on Março 29th, 2008 23:00

    pelos visos quer-me parecer que o homem é uma espécie de laurinda Aloves da classe alta. Será isso?
    Que Deuis nos perdoe!

  15. Francisco Crispim on Março 31st, 2008 17:34

    Enternecedora, a solicitude de PTP com os pobres, cuja sorte o preocupa.
    Ao ler-lhe a prosa, preferi o “poema” e, ao ler este, calculem, preferi aquela.
    Tanto que, em vez de escrever PTP, os dedos me fugiam para as teclas PQP.
    E não é que se trata mesmo de um refinado FDP?

  16. Bibliotecário de Babel – Paulo Teixeira Pinto lido por Mário Crespo, Nicolau Santos e Pedro Abrunhosa on Outubro 7th, 2008 7:21

    […] não gosto da poesia de Paulo Teixeira Pinto. Disse-o aqui e mantenho. Mas, não fosse andar afundado em trabalho e em corveias auto-impostas (a leitura […]

  17. A. S. Marques on Outubro 12th, 2008 11:40

    Bom, o «último sopro sob os ossos» está perfeitamente correcto. Os ossos são as costelas, o sopro é dos pulmões. Os pulmões são mais interiores, e presumivelmente, na visão de PTP, estão para os ossos como o verbo para a carne, ou a chama para a vela que se derrete.

    Dito isto, também não gosto muito, mas que é que se há-de fazer. Há tanta coisa de que não gosto.

  18. Carlos on Outubro 20th, 2008 9:33

    Era uma vez um PTP que tinha um emprego. Ao fim de anos a puxar a carroça, ou a ser por ela puxado, PTP acabou mergulhado nas querelas dos Homens e da tríade: dinheiro, poder e decisão. Algures nesta dialéctica, a ética, a miopia ou a inveja de tantos. Tudo normal, pois de pessoas falamos.
    E chega o dia em que PTP perde o emprego e é indemnizado. Foi muito? É um valor escandaloso? Tanto quanto as autarquias gastam com futebol, alguns empresários em campanhas, quase cinematográficas, de publicidade, e outros, e são tantos, por pouco ou nada fazerem a não ser verter o seu assumidíssimo conhecimento, dito intelectual, em introspecções sobre atiradores de facas.

    Se temos o país e as pessoas que temos é porque o merecemos e melhor não se está a conseguir fazer. Se PTP foi rico, é rico é monárquico, seguidor da opus dei e outras coisas, a ele dirá respeito, e se ainda por cima investe o seu dinheiro na publicação de livros, num dito projecto cultural, ou se escreve o que lhe vai na alma, porque se tem tanta pressa em dizer mal? Quem disse que a nossa opinião sobre isto era importante? Quem deixou de dizer, que em vez de opinar deveríamos estar a trabalhar? Tal como eu, que estou para aqui a escrever…

    Ele vive em Lisboa, eu em Viseu. Ele é da opus dei (ou foi) eu procuro saber mais sobre a Codificação Espírita. Ele é monárquico e eu admiro alguns dos portugueses do séc. XV e XVI. Eu prezo a república, porque não conheci outra. Eu não empatizo com os materialistas, com a desigualdade, com os narcisos e conservadores, nem com os que lutam por direitos esquecendo os deveres, com os obtusos de consciência e chatos do costume, com ditadores e reis a desprezar quem não o é.
    PTP tem dinheiro para um projecto e eu busco-o para fazer o meu. PTP soube esperar e fazer caminho para chegar a ele e eu ainda não descobri o meu.

    E vocês o que estão a fazer? Em vez de estarem a ler este texto da treta, não deveriam estar a pensar como concretizar coisas de valor -, o que considerem ser valor, que gere emprego, partilha, saber?

  19. David Fernandes on Novembro 7th, 2008 11:50

    “Cá estaremos para ver o rumo que a Guimarães vai tomar.
    Teixeira Pinto afirmou que não está nisto pelo dinheiro, mas não me surpreenderia que aproveitasse a editora como canal de propaganda para a ortodoxia da Opus Dei, para o ideário mais conservador que imaginar se possa, para a Causa Real, etc.”

    Caro José Mário Silva

    Em Março escreveu aquilo. 9 meses passados já conseguiu ver alguma coisa do tal rumo da Guimarães? Já conseguiu ver o tal aproveitamento propagandístico? Ou tem andado a dormir?

    Que pequenez.

«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges