Dois «engenhos» de Maria do Mar (aliás, Adriana Crespo)

ENGENHO 1

Embora mais elegantes, mais leves, mais delicadas e até mais subtis, estas máquinas têm a simplicidade de um moinho de vento. Deslocam-se da direita para a esquerda, muito suavemente, mas quantas são? Talvez dez, afastadas três metros umas das outas, ou talvez mais, não sei, não as contei. O seu movimento é um paradoxo, porque, embora girem com alguma velocidade, parece que se movem lentamente. Será por causa das várias fitas que em seu redor deslizam, suspensas no ar pela própria leveza do tecido? Todas elas giram na mesma direcção, mas em andamentos diferentes (como se estivessem a conversar). Na verdade, estas máquinas parecem deslocar-se tão devagar como alguém que caminhe com sandálias de chumbo a vinte metros de profundidade, debaixo de água. Não se trata, portanto, de um movimento em condições de gravidade normal. A gravidade é muito menor, quase não permite tocar com os pés no chão. É preciso acrescentar pesos ao corpo para conseguir andar, mas, mesmo assim, até com sandálias de chumbo se torna difícil tocar com os pés no chão. E é assim que estas máquinas se movem, como elementos de uma supra leveza. Elas medem dois metros de altura por um de largura, não são muito grandes. Têm nos extremos dos raios que compõem as rodas triângulos que são feitos de cartão fino e firme, forrados de seda vermelha, suave e brilhante. Nas pontas de cada um desses triângulos, as fitas transparentes estão presas e voam, à medida que rodam, da direita para a esquerda, como bandeirinhas. Nenhuma delas é igual. Todas têm cores e tamanhos diferentes, pois trata-se de um brinquedo. O que o move é uma corrente de ar, ou alguém que o faça girar com a mão (como um papagaio).

ENGENHO 2

Trata-se de um paralelepípedo encarnado e não muito grande, talvez com um metro e meio de altura, pouco mais de largura. É preciso agachar-se para entrar pela pequena porta que existe de lado, tal como fazem os adultos quando a curiosidade os impele a observar uma casinha de crianças. Logo em frente da pequena porta está uma outra parede e, não fosse o ruído muito indistinto que vem do interior, dir-se-ia que a entrada era impossível. Entra-se com esforço, andando quase de gatas. Nessa altura, fica-se no chão, à procura de uma posição, ou melhor, à procura de qualquer coisa que não se sabe o que é, à procura de um outro estado. Não se vê nada, mas há uma sensação de estar completamente encharcado, uma sensação de estar totalmente despido, e é estranho como se pode ao mesmo tempo estar tão vulnerável e tão escondido. Por causa dessa preocupação, é muito devagar que o novo mundo à roda começa a definir-se. O ruído da água a cair ocupa todo o espaço e invade os ouvidos que parecem desprotegidos. Às vezes parece chuva caindo suavemente sobre a estrada, captada no interior de uma casa, outras vezes uma bátega, caindo estrepitosamente, outras vezes um rio, outras vezes uma cascata. Mas o que é? Só muito lentamente é que os olhos habituados à escuridão começam a distinguir em redor, nas paredes da caixa, a água que cai em tons de azul muito escuro, roxo e negro. São gotas sobre um vidro, como as da chuva sobre as janelas? O que é?… Muito devagar, gradualmente, a água vai ficando mais clara, azul, verde e transparente, com bocados de espuma branca que parecem um excesso de alegria. É um rio? É o mar? É uma cascata? A água por vezes desliza como um caudal sobre um vidro transparente, mas não se consegue perceber o que é. É água, ou não é água? Quando de novo a luz se apaga, a água já não fica, nem azul, nem negra, mas vermelha e cor-de-rosa, caindo em pequenas gotas que se acumulam como sangue sobre um vidro. É o interior que se torna igual ao exterior, como um vestido do avesso? Ou é o exterior que se torna igual ao interior, como um animal esfolado? É o mesmo encarnado luminoso de quando entraste, ou é diferente? Estás aqui dentro, ou estás lá fora? Onde é que estás? Tens frio ou queres dormir? Queres sair ou queres entrar? Se eu estou de fora, então entro? Se eu estou dentro, então saio? Não se ouve mais ruído, apenas vozes de crianças a cantar. Tens frio ou queres dormir? Queres sair ou queres entrar? Um-dó-li-tá, cara de amendoá, um soneto coloreto, quem ficará. Um-dó-li-tá, cara de amendoá, um soneto coloreto, quem ficará. Tu sais quase a correr, de gatas, ou então ficas. Nesse caso, quase adormeces.

[in O Elogio da Leveza, Corpos Editora, 2008]



Comentários

2 Responses to “Dois «engenhos» de Maria do Mar (aliás, Adriana Crespo)”

  1. antonio saias on Outubro 31st, 2008 18:54

    muito bonito. É estúpido dizer isto?
    penso no meu diálogo com o lume

  2. C on Novembro 1st, 2008 12:08

    Bonito, bonito, bonito o texto referente ao Engenho 1.

«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges