Dois círculos

Eis o texto que resultou da conversa, sexta-feira de manhã, no Centro de Acção Social dos Anjos, em Lisboa, com o Adelino, o Hélder, o Daniel, o José Manuel e o João Miguel:

DOIS CÍRCULOS
Assim juntas, as mesas circulares formam um oito, ou então o símbolo do infinito (depende). À volta, cinco homens com marcas no corpo e na memória: cicatrizes, tatuagens, rugas, histórias de rasteiras que a vida prega, «percalços» a que não se quer voltar, nem no tempo suspenso de uma conversa. Dos cinco, o mais reservado é o Lino, o Adelino que hoje faz 50 anos e sorri muito quando todos o cumprimentam («então não dizias nada, pá?») mas depois se fecha em copas. O sonho de ser médico não passou disso mesmo: um sonho. «Sempre fiz tudo ao contrário.» A escola deixada a meio, os descaminhos, as muitas detenções. Atrás das grades, os livros que ia buscar à biblioteca foram importantes: «Ajudavam-me a sair dali, a evadir-me dentro da cabeça.»
Para Hélder, a libertação não foi a leitura, mas a escrita. Há uns anos, a psicóloga das Taipas que o salvou do abismo das drogas, uma rapariga que conhecia desde a infância em Benfica, ali para os lados do Califa, pediu-lhe que pusesse no papel a sua vida e ele escreveu-a, com o seu lado negro, os remorsos, todas as dores. Lá recapitulou a história do pai que era pasteleiro em Luanda e vendia bolos num raio de 400 quilómetros, até ao dia em que teve de voltar para Portugal e deixou tudo, e perdeu tudo, casa, carro, negócio, tudo, tudo. História parecida, a do filho, a dele próprio, mas sem o fim do império como desculpa: «Houve uma altura em que eu era electricista durante o dia e vendedor da TVCabo à noite, nunca ganhei tanto dinheiro, tinha um apartamento em Santo António dos Cavaleiros, mulher, automóvel, e num mês foi-se tudo, num mês perdi o que levou anos a construir.» A psicóloga das Taipas salvou-o, há um ano que nem sequer precisa de metadona, mas as doenças arruinaram-lhe o corpo. «Aos 39 anos, estou reformado por invalidez.» Não é preciso dizer mais nada.
No trajecto de Daniel, 42 anos, há uma mistura de Lino e Hélder: prisões e drogas. Em miúdo, jogava futebol na Praça da Alegria, partia vidros e imaginava-se centrocampista do glorioso SLB. Ainda calçou as chuteiras no Casa Pia e no Oriental, mas ficou-se pelos juniores. Aos 17 anos, a vida inclinou-se para o lado pior e «nem vale a pena entrar por aí», pois nunca passaremos da ponta do icebergue. Ao bafo da morte, conhece-o bem: perdeu a vista direita com uma facada, já levou um tiro, já esteve em coma devido a uma pneumonia. E sabe que o destino prega partidas irónicas. Filho de pai ausente, em pai ausente se tornou. Há 22 anos, era funcionário da Santa Casa, nas oficinas de carpintaria; hoje, é «cliente» das refeições que a Santa Casa serve nos Anjos, no lugar a que em tempos se chamava «sopa dos pobres».
O futebol também foi o futuro não cumprido do João Miguel, 47 anos. Nas camadas jovens, chegou a jogar no Sporting e no Benfica. Depois seguiu como semi-profissional no Odivelas (no tempo em que lá estava o Oceano) e em equipas dos distritais. Era ponta-de-lança, sempre na frente, um fartote a marcar golos de cabeça. A cabeça que infelizmente lhe faltava para o resto. Com os olhos brilhantes, resume: «A droga e a night estragaram-me a vida.» A família tentou curá-lo, mas ele fugia sempre dos centros de reabilitação, mal começava a ressaca. Passou por Espanha, pela Áustria, pela Suíça, pela Alemanha. Tem pena de não ter ficado em Zurique, onde se entusiasmou a tratar de um jardim. Em vez disso, voltou para Portugal. Foi escriturário-dactilógrafo no Hospital Pulido Valente e segurança no Metro. Está desempregado desde Janeiro, ainda com esperança de que as coisas mudem. Aponta para os companheiros de mesa: «Do que a gente precisa todos é de arranjar trabalho.»
José Manuel, o mais velho dos cinco, faz que não com a cabeça. Por ele, prescinde de mais trabalho. Basta-lhe o consolo das refeições quentes e alguma companhia. Aos 50 anos, quando emigrou para Inglaterra, sentia-se com 40. «Agora, com 62, é como se tivesse 70.» A morte da mãe, que acompanhou na doença final, deitou-o abaixo. Mas a memória ainda funciona. Lembra-se do primeiro emprego, aos 14 anos, numa companhia de seguros. Lembra-se de ser dispensado da fábrica de bacon, na Cornualha, com muitos outros, e do curso de mecânica automóvel que fez logo a seguir. Lembra-se da comissão em África, Moçambique, de 1971 a 1973, no destacamento de Fotografia e Cinema, a revelar filmes que mostravam cenas das evacuações em combate, mortos e feridos a entrarem nos helicópteros. Lembra-se do Bagdade, o piano-bar de Nampula, onde se bebiam copos no meio da guerra e o pianista não era nada mau. Lembra-se dos livros que nunca deixou de ler (Eça de Queirós, Soeiro Pereira Gomes, Jorge Amado, José Cardoso Pires). Lembra-se dos discos que ouvia no seu estúdio minúsculo, lá em terras de Sua Majestade (música clássica e muito jazz, sobretudo bebop, Coltrane, Charlie Parker, Gillespie, Miles Davis). Ao contrário dos outros, nunca sucumbiu ao apelo das drogas, essa escura maldição. Ao álcool, sim, sempre ajuda a adormecer à noite, «mas sem abusos».
No relógio, os ponteiros unem-se sobre o 12. É hora de almoço, arrastam-se cadeiras. Afastadas, as mesas voltam a ser só dois círculos numa sala vazia. Uma sala que se fecha, com estas histórias lá dentro, a pairar.



Comentários

One Response to “Dois círculos”

  1. Olinda Melo on Maio 9th, 2011 13:58

    Vidas sofridas; histórias que, infelizmente, se encontram ao virar de cada esquina. Nunca é demais divulgá-las e dar voz a quem não a tem.

«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges