Dois e-mails, um sonho (ou Dançar com António Lobo Antunes num terraço inclinado)

Ontem à noite, recebi do escritor brasileiro Alfredo Aquino o seguinte e-mail:

«Boa Noite.
Li a crônica do Lobo Antunes [no último número da revista Visão, sobre o suposto abandono da escrita, anunciado dia 16 em entrevista ao Diário de Notícias]… e não a entendi. Um sentimento de perplexidade frente ao texto revelado ou desejado.
Fiquei um pouco chocado com a afirmativa de que só escreverá para si e para destruir, no futuro.
Que o seu leitor ideal é um que não lê, o sem-teto de hábitos bizarros.
Estamos agora a descobrir a obra de Lobo Antunes no Brasil e procurando divulgá-la aos leitores, jornalistas, livrarias, bibliotecas e certames culturais. Com as dificuldades naturais dessa tarefa.
Daí ele produz essa abdicação e nos deixa a todos aqui um tanto desanimados e frustrados com a nossa própria palavra em favor do autor. É importante esclarecer que se trata de uma palavra espontânea sem vínculo a editoras, veículos editoriais, jornais ou qualquer atividade remunerada. Apenas a leitura e a admiração da boa literatura… o blog em sua essência.
Daí vem essa crônica e o homem desmancha de um golpe o que se está a construir com afinco e resta um sentimento de desalento, frustração e tristeza, como se tudo fosse um engano e um engodo, em que participávamos como paspalhos sem convites. Um equívoco amargo… será isso mesmo?»

Mais ou menos 40 minutos depois, respondi-lhe assim:

Caro Alfredo,
Há coisas muito estranhas.
Ainda agora estava a deitar os meus filhos e fiquei por lá, junto à Alice e à sua girafa de peluche, contando histórias. Como estou absolutamente exausto, depois de uma semana duríssima, com passagem intensa pelas Correntes d’Escritas (onde se fala muito, se bebe, se dança, mas se dorme quase nada) e um excesso de trabalho no regresso a Lisboa, adormeci. No escuro do quarto, só iluminado por um móbil de libelinhas luminosas (como pirilampos), adormeci e sonhei, um sonho muito estranho que me deixou um sabor acre na boca quando acordei, com a chamada de um amigo para o telemóvel (afinal de contas, ainda não eram onze da noite, uma hora razoável para quem me conhece). Levantei-me estremunhado, respondi como pude, arrumei a mesa do jantar e vim aqui ver os e-mails. Comecei lendo o seu e de repente lembrei-me do sonho.
Sabe com quem eu sonhei? Não vai acreditar. Sonhei com o Lobo Antunes. Ele vestia um casaco preto de cabedal, muito comprido, um chapéu de cowboy e estava bêbedo. Podia sentir o bafo à distância. E depois muito próximo, porque ele abraçou-se a mim, como se eu fosse um amigo de muitos anos (na realidade, nunca sequer estivemos juntos). A cena passava-se numa espécie de terraço, inclinado sobre Lisboa e o Tejo. Ao longe, uma música melancólica. E então ele pôs-se a dançar comigo. A sério. Eu oferecia resistência, «o que é isso, António?», mas ele, com voz arrastada, dizia «Eu gosto mesmo de si, do que escreve, do seu olhar sobre as coisas» (devia estar a referir-se aos livros que escreverei um dia; se é que algum dia escreverei algo que lhe agrade mesmo), e eu «António, vá lá, cuidado, o terraço é muito inclinado, não faça um diparate», e nisto ele rodopia, tropeça e quase cai dali abaixo, eu fico a segurá-lo por um pé, não está ninguém por perto, e é com muita dificuldade que consigo por fim puxá-lo cá para cima. Quando vou olhar para o rosto dele (o chapéu caído na escuridão, ou talvez no Tejo), toca o telemóvel e sou arrancado ao sonho, como se de repente alguém tivesse acendido todas as luzes de um teatro.
Agora que começo a ficar um pouco mais acordado e lúcido (mas não muito), apercebo-me que devia estar a sonhar isto tudo enquanto você escrevia o seu e-mail. O escritor que há em mim (o escritor que o Lobo Antunes do sonho julgava que eu era, não o escritor que realmente sou) talvez arriscasse uma explicação: a pergunta que o Alfredo se coloca («será que o Lobo Antunes vai abandonar mesmo a literatura?») teria a resposta no meu sonho (sim, ele está namorando o vazio, o abismo, mas quando decidir lançar-se nele, alguém, um dos seus leitores, simbolizado por mim naquele devaneio onírico, salvá-lo-á). Era a saída perfeita. Mas, infelizmente, temo que o sonho tenha sido apenas isso: um sonho. E a pergunta continua por responder.
Um grande abraço,
José Mário



Comentários

3 Responses to “Dois e-mails, um sonho (ou Dançar com António Lobo Antunes num terraço inclinado)”

  1. Filipa Jardim on Fevereiro 21st, 2009 13:06

    José Mário Silva,

    Se há pessoa que se interessou pelo escritor Lobo Antunes, no Brasil, foi mesmo o Alfredo Aquino.
    Ele divulgou o escritor, mostrou os livros aos amigos, publicou as crónicas no blog, as entrevistas.Partilhou os poucos livros que eu lhe enviava daqui. Mostrou orgulhoso, o “Arquipélago da Insónia”, na mesma semana em que deu à estampa em Lisboa Conseguiu mesmo que a sua amiga, a mentora do extraordinário projecto das jornadas de literatura de Passo Fundo se interessasse pela obra do escritor, muito pouco divulgada até agora no Brasil, daí surgiu o convite para o escritor estar presente, no próximo Agosto, nas jornadas, com todas as honrarias, todas as deferências.

    Não foram as editoras portuguesas, que nem se interessam sequer por conhecer as obras dos bons escritores brasileiros e, pode crer que eu tenho tentado. Foram as pessoas, amantes dos bons livros, que se movimentaram, com o Alfredo como o grande impulsionador.

    Eu entendo o sentimento dele e de tantos escritores brasileiros como ele.
    escritores da melhor qualidade, que perplexos, assistem a tudo isto do outro lado do Atlântico.

    No Brasil eu encontrei um interesse pela literatura portuguesa, como nunca encontrei aqui em Portugal.Uma abertura à novidade, gente que lê e relê para melhor compreender os livros de Lobo Antunes. Gente que me pergunta onde encontrar, como conseguir…muitas vezes em parte nenhuma , porque somos nós, que os fazemos chegar ao Brasil.

    E o Alfredo queria ir mais longe…mais longe ainda, pensando já como conseguir a maior abertura dos Brasile dos brasileiros à obra do escritor António Lobo Antunes. 200 milhões de falantes da língua portuguesa, um mercado imenso…e agora esta notícia. Tudo isto faz algum sentido? Tudo isto vale a pena?

    Em Agosto, lá em Passo Fundo, o escritor António Lobo Antunes será muito bem recebido, disso eu mão tenho a mais pequena dúvida e irá viver e partilhar dessa experiência única, dessa festa maior, que são as jornadas de literatura de Passo Fundo. Depois veremos…

    Um abraço,

    Filipa Jardim

  2. venancio on Fevereiro 22nd, 2009 13:58

    Interessantes e reveladores textos, estes – o de Alfredo Aquino, o de José Mário Silva, o de Filipa Jardim. Deixo alguns apontamentos.

    Primeiro, acho que um fim-de-vida literário calculado é um acto respeitável.

    Depois, considero que o ficcionista António Lobo Antunes andou os últimos anos – na realidade, desde o grande «Manual dos Inquisidores» – a sobreviver-se a si próprio. Se, desde então, alguma coisa o escritor de excepcional produziu, foram umas magníficas crónicas de jornal.

    Em suma: o grande romancista há muito se evolou. Haja, pois, além-mar, alguma tranquilidade mais. E leiam, releiam, «Os Cus de Judas», «Explicação dos pássaros», «Fado Alexandrino» e o já referido «Manual».

    O resto é fetichismo. Do autor. Dos leitores.

  3. Filipa Jardim on Fevereiro 28th, 2009 13:03

    Um esclarecimento,

    Em nenhum momento do meu comentário tornei, penso eu, menos respeitável a opção do escritor António Lobo Antunes de deixar de escrever. Aliás, nem isso é passível de ser comentado.
    O que eu comentei, foi a crónica da revista Visão em que o escritor afirma publicamente que continuará a escrever mas somente com o intuito de destruir depois. E mesmo assim, o meu comentário não foi de forma nenhuma uma critica à atitude do escritor, mas tão somente o expressar de uma perplexidade, nomeadamente em relação ao esforço por parte da editora que o representa de o lançar em mercados como o Brasil. Não um esforço meramente editorial, visando editar os livros, mas um esforço que contempla presença do escritor em eventos literários.
    Foi só essa a dimensão do meu comentário, nada mais.
    Fica também o esclarecimento quanto a presença da obra do escritor no Brasil. Nem todos os livros estão editados no Brasil.
    Alguns estão a sê-lo neste momento. “Reler” António Lobo Antunes no Brasil não é pois, uma tarefa sempre fácil.

«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges