Dois novos poemas de Miguel-Manso
ORLANDO PANTERA
I am a professional
e dançámos
lentos & digestivos
mas tentemos antes passar
o dia a limpo:
o Peugeot 205 vermelho embalado no auto-
-rádio a praia pequena a seguir ao Guincho
deserta
o teu peito nu mulato
contra as ondas o riso ladrado
da cadela entrando e não entrando
no mar
as rochas o mexilhão a navalha
o regresso aos poucos a tua casa
coentros água doce tachos
o lume
onde cozeste o pão
e que ateaste usando as páginas da lista telefónica
– queimando toda a rede fixa de Carcavelos –
o pássaro
morto na escrivaninha
o desenho a meio
depois a noite a lua
o alpendre onde já não se ouvia o mar
a cadela fingia o sono no tapete suspirava
no fumo dos cigarros
ao fundo do jardim sobre a relva
deixámos várias caixas de sapatos
adaptadas para a fotografia pinhole
abríamos o obturador e o tempo de
exposição era toda a madrugada
WIM MERTENS
Stratégie de la Rupture
o Pragal (e evitámos sempre
peregrinações que fossem para lá
da praia mais a sul da Caparica) era
uma manhã muito branca
vindos de Lisboa e da Noite
ainda os olhos ruminavam os reflexos do rio
que havia maquinado beleza e cegueira
dentro do comboio da ponte e de nós
a sala de desenho
– com a palavra Deleuze a giz no quadro negro
seguida de mais uma daquelas citações bastante
herméticas e, diga-se, cheia de erros ortográficos –
era tão branca como a manhã do Pragal
alguns de nós eram os menos talentosos
artistas do Reino
eu, por exemplo, que preferia mil vezes
o almoço na cantina, a comer o coração da mãe
para entender a linguagem dos pássaros
e apreciava a chegada do bom tempo
cultivando a preguiça nos jardins
a minha produção, é verdade, caminhava já
para um lugar etéreo, ténue, um desses lugares
que podemos encontrar apenas no Dicionário de
lugares imaginários (nem deve ter sequer entrada)
limitava-me a marcar em algumas folhas
uns insuspeitos carimbos
que comprara
em lugar das académicas vaias
havia para nós, Joana, músicas
[in revista Telhados de Vidro, n.º 12, 2009]
Comentários
- Melancólicas criaturas em 20 de Maio de 2012
- Primeiros parágrafos em 20 de Maio de 2012
- Um rato através da anaconda em 20 de Maio de 2012
- Os reflexos do mal em 19 de Maio de 2012
- O que aí vem (Esfera do Caos) em 19 de Maio de 2012
- Camané no ‘Avenida de Poemas’ em 18 de Maio de 2012
- Amanhã, na secção de Livros do ‘Actual’ em 18 de Maio de 2012
- Juan Marsé: “Ao romancista não basta a realidade, ele tem de ir sempre um pouco mais além” em 18 de Maio de 2012
- Cinco poemas de Liberto Cruz em 17 de Maio de 2012
- A pirâmide alimentar dos escritores em 17 de Maio de 2012


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