Dois poemas de António Ferra

GÓTICA DE CORPETE NEGRO

Que bem que passa aquela gótica,
de negra cabeleira espevitada
na noite fria, um tanto asmática,
onde mora a madrugada!

Toda de negro e prata na cabeça,
redonda e larga a bota alta
num corpete negro de mistério
quando a altas horas se aperalta,

é falsa tristeza, é falso olhar,
é tudo uma questão a produzir
o lábio fino e roxo a falsear
a alegria reprimida de se rir.

De umbigo solto, fascinante,
por baixo da frágil sombra da olheira,
outros olhares atrai, só por instante,
o corpete da miúda que se esgueira.

Mas vem dos seus genes ancestrais
aquele corpo reflectido nos espelhos,
vem de longe um galante de T-shirt
que por vergonha não tomba de joelhos.

E alta noite, já quando regressada
de passear a solidão pela cidade,
remove a máscara, atira-se p’rá cama,
e por fim fica nua de verdade.


TATUAGEM

Ele tem um tigre gravado no braço
ela uma fada colada para sempre
ele uma árvore crescendo nas costas
ela uma ave voando no ventre

ele traz um gato pregado no braço
ela uma rosa bordada no seio
ele um lagarto atrelado à perna
ela uma estrela mesmo no meio

ele mostra a caveira rodeada de rosas
ela ramagens correndo-lhe o corpo
ele uma cobra subindo ao pescoço
ela mensagens de um pássaro morto

Eles pertencem àqueles que posam
entre cardumes azuis e vermelhos
ele com sorte, silêncio e futuro
ela com música a sair dos joelhos

Aqueles que adornam o seu próprio corpo
trazem imagens que alimentam a crença
de serem marcados por quem lhes pintar
um sinal na alma que lhes diga a pertença

[in Livro de Reclamações, Fabula Urbis, 2010]



Comentários

One Response to “Dois poemas de António Ferra”

  1. henedina on Fevereiro 2nd, 2010 0:10

    Milady, é perigoso contemplá-la,
    Quando passa aromática e normal,
    Com o seu tipo tão nobre e tão de sala,
    Com os seus gesto de neve e de metal.
    Cesário Verde

    Que bem que passa aquela gótica,
    de negra cabeleira espevitada
    na noite fria, um tanto asmática,
    onde mora a madrugada!
    António Farra

    :)
    O mundo é feito de coincidências, e algumas, reconciliam-nos com a vida.
    O que é péssimo porque são…coincidências.

«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges