Dois poemas de Carlos Oliveira Santos

O cartaz ocupava
toda a fachada contrária
à plataforma da Central Park North.

Era branco
e tinha umas letras pequeninas
no meio.

As pessoas tinham tendência
a concentrar-se no meio da plataforma
para lerem o que lá estava.

«Se ao menos fosses tu próprio.»

Era isto,
em letras a preto.

Se ao menos fosses tu próprio?!

Ficava tudo a olhar,
calados.

Alguns deixavam passar
o comboio deles
só para continuarem
a matutar naquilo.

«Se ao menos fosses tu próprio.»

Pior ainda
foi quando um tipo,
lívido,
esperou a vinda
dum comboio
e mandou-se,
choque de corpo,
todos chocados
a olharem para os bocados
a romperem-se
e alguns a arderem
quando tocavam nos carris eléctricos.

Tiraram o cartaz.

Acho que anunciava uma marca de roupa interior.

***

Foi um grande truque.

Magnum, o maior mágico do Bronx,
prometeu e fez.

Dar um nó nas linhas da Flushing e da Queens Boulevard.

E deu.

Foi uma chatice para desenvencilhar aquilo.
Ele não conseguiu.

Teve de se mandar vir o Big Master de Chicago
que já tinha dado um nó
na linha do Times Square Shuttle com a da West Side,
mas desfez a coisa pouco depois,
com os aplausos de todos.

O Big abeirou-se do nó,
indo pela Quinta Avenida.

Sei lá o que ele fez.
O que é certo é que os comboios
voltaram a passar.

[in US America, Scribas Editores, 2008]



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«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges