Dois poemas de José Rui Teixeira

A profecia descia a rua como a luz a oriente em manhãs douradas e pousava sobre uma caixa onde Zerbino guardava búzios e dedos amputados. Se cerrava os olhos, via uma mulher pela qual lutariam até à morte homens piedosos e honrados; lutariam até à morte para exibi-la como um troféu de caça; na intimidade, marcá-la-iam com os dedos no flanco. Zerbino amava-a cheio de compaixão, como se amam pêndulos e planisférios.

***

Durante muito tempo errou na periferia de poços e taludes. Cresceram-lhe êmbolos no abdómen como fúcsias na densidade de Maio. Durante muito tempo Zerbino fugiu da crueldade de homens piedosos. Amava ainda Deus com todo o seu coração, como se amam cães sem dono ou mulheres silenciosas. Caim matara o justo Abel por esses dias, mas Zerbino nada sabia sobre a ciência circunscrita dos venenos ou a hermenêutica das máscaras.

[in Zerbino, Cosmorama, 2008]



Comentários

One Response to “Dois poemas de José Rui Teixeira”

  1. Francisco on Setembro 30th, 2008 16:01

    Poetry mambo jambo, ou algo mais? Lá terei de ir ler o livro à FNAC para saber…

«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges