Dois poemas de Manuel A. Domingos

Talvez o conheçam como blogger, mas ele é também poeta, agora com um segundo livro a chegar às livrarias. Intitula-se Mapa e vale a pena uma pessoa perder-se lá dentro.
Eis a capa:

mapa.jpg

E eis dois poemas:

quando nos juntávamos
o tema era sempre
o mesmo. mas muitas
vezes discutiam-se
outros, e até ideias como
a imortalidade ou
não da alma: e fumar
tornava-se mais
pertinente. as conclusões
ficavam sempre
com cada um, ou então
deixadas em cima da mesa,
à espera que alguém as limpasse.
eram longos e luminosos
os dias, apesar do preto
que predominava
nas nossas roupas
e em alguns poetas
que líamos, de quem
decorávamos sempre
alguns versos. como
por exemplo estes:
«Par délicatesse
j’ai perdu ma vie».

LONDRES

nunca cheguei a escrever um poema sobre
a cidade ser à noite um carrossel
de luzes. nem outro sobre
a fotografia onde fiquei com ar
envergonhado. ou sobre o frio e
o passeio por Hyde Park, onde
pássaros vieram comer às tuas mãos
e eu deixei fugir alguns versos
só para te poder fotografar. ou sobre
a casa estilo vitoriano, que prometeu
ocultar todas as palavras que dissemos
um ao outro, quando ao deitar
nos encolhíamos debaixo de
vários cobertores e mesmo assim
tínhamos frio. ou o definitivo,
aquele que falaria sobre Greenwich
e o meridiano que me ensinou a importância
do tempo que sempre falta, principalmente
quando numa das pontes quis dizer amo-te,
mas havia um autocarro para
apanhar. e era já o último.



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«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges