Dois poemas de Manuel de Freitas

MERCADO DOS LAVRADORES

Desobedece às flores,
como quem vai morrer.
Arrumam as entranhas
de espada negro, enquanto
uma mangueira firme
varre da infância
todos os que já partiram:

Gregório, Isaías, João,
alguns outros mais.
Nos bares em volta,
nas bancas de raspadinha,
procuras – mas não encontras –
o esquecimento.

Isso mesmo, o esquecimento.

BARREIRINHA

De repente, pai, entre
o silêncio de duas ondas,
ouvimos a única pergunta:

quantas vezes
ainda nadaremos juntos?

[in Boa Morte, edição de autor, 2008]



Comentários

4 Responses to “Dois poemas de Manuel de Freitas”

  1. Christopher T. on Fevereiro 26th, 2009 0:02

    Há no mármore dos meus pulsos,
    Uma brecha doirada por onde uiva o vento,
    Espreito para ver escorrer a matéria
    Que arrasta obstinadamente o meu sonho.
    Um órgão, um sexo de cristal,
    Ira de coisa nenhuma dissimulada
    Nesse tempo materno que se abre,
    Olho persistentemente como se toda a indiferença
    Contida no sémen espalhasse
    Toda a fragilidade desta verdade.
    Rasgo o verso e lanço-o como pétalas
    Dos teus cabelos onde o vento se agita,
    Soletrando apenas um canto obsceno do Norte.
    É eco abafado, indistinto e berrado…
    Na passagem funda afoga-se, nas entranhas uiva….
    Um naufrágio, cheiros subterrâneos coexistem neste silêncio
    De fogo, já passou e do outro lado olha-me…

  2. Hum on Fevereiro 26th, 2009 9:21

    Estava à espera de encontrar hoje o vídeo com os golos do Bayern, mas fiquei decepcionado… é pena 😀

  3. José Mário Silva on Fevereiro 26th, 2009 11:54

    Ainda nem sequer os vi, caro Hum (e não sei se terei agora coragem de os ver). A verdade é que ontem não estava, felizmente, atrás de nenhuma das balizas.

  4. morraaescritapim on Fevereiro 26th, 2009 15:44

    O segundo poema é demasiadamente bom. E tão simples.

«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges