Dois poemas de Nuno Dempster

Talvez houvesse rosas de Isabel
que Inês mudasse em outro paraíso,
andar por entre flores e pousar
a vista em coisas mínimas, pensar
que Pedro viria à noite, ou apenas
sentir o ventre ainda sossegado,
que assim melhor se vive, sem a culpa
magoar, como a cruz feria o deus
e a excomunhão dos bispos recordava.
Nada disto, porém, é verdadeiro.
Cenários apagados, tudo longe,
em ruínas o paço: uma janela.
A História só escreve equações,
da vida interior nada se lê.
Perdeu-se Inês nos campos do Mondego,
e agora recriamo-la, poesia
que se gera em sentido inverso à vida:
Inês, num paraíso que não há,
caminha virtual entre poemas.

***

Senta-te no silêncio das arcadas
místicas da abadia. Frente a Cristo,
vai pensando nos ossos de Pedro e Inês
e na imagem do filho abandonado
pelo pai, quando Deus se tornou o
grito «Eli, Eli, lama sabachthani?»
Medita então na morte dos amantes,
como deles se foi a luz e a força
centrípeta que os chamava, o íman real
da gravidade humana, e pensa o grito
que alguém deixou no livro dos profetas.
Sai então do mosteiro, observa a praça
e as casas em redor, cruas de sol.
Onde estão Pedro e Inês? Ninguém os vê.
Um a seguir ao outro, a morte teve
a carne luminosa dos seus corpos,
e hoje os ossos antigos nada dizem:
o presente é o largo do mosteiro
e a lojista ao fundo que dispõe
a tralha de ‘recuerdos’ sempre iguais,
e nada irá surgir ali que espante.

[in Pedro e Inês: Dolce Stil Nuovo, Edições Sempre-em-pé, 2011]



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«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges