Dois poemas de Rui Almeida

A prontidão das sombras resume
Um simples corpo e resvala sinuosa.
Sei que recordo tudo em certos momentos.

Recordo-te até como se te chamasse,
Como se corresse através do caminho
Que vais preparando junto aos precipícios.

Mas a memória revela o que não sei,
Desfaz sequências de nomes até ti.

Repito a violência e seguro uma pedra
Com as mãos – tal como as tuas – já perdidas.

Repito toda a fragilidade que o teu peso insinua
E derramo a voz ao limite – ossos e carne
Que nos atiram ao chão com o afecto da dor.



Talvez da poesia possas receber alguma coisa;
Nem sempre o que sabemos nos encontra
E o mal de estar vivo é a incompreensão do mundo.

Porém, deixa-te estar aí, sentado, sem nada fazer –
É melhor do que arriscar, mais simples, desculpa-te
Com a angústia e com a decadência. Da poesia

Alimenta-te cautelosamente, não deixes que
Preencha qualquer dos vazios secretos do teu corpo.
Talvez as palavras sejam apenas justificações para

O instinto, para a necessidade de supressão da
Dor e do esquecimento que incomodam. Nunca
Seremos mais do que apenas carne e sangue

Enquanto o medo for a cor da pele do rosto.
Talvez o tacto seja uma alternativa ao texto;
Ou a sublimação exaustiva do desejo. Talvez

A memória seja apenas uma parte da ficção,
Um desconsolo feito alternativa aos dias,
Ao sonho e às responsabilidades. Dormir

Fecunda os processos de reunir palavras,
Simplifica as manobras do estilo e segura
A vontade da redundância. Tudo se perde

Na ânsia de testemunhar cada sensação.
E as mentiras com que nos justificamos
São o gesto arbitrário da melancolia quando

Nada mais nos pode impedir de recolher
Ao limite mais recôndito da esperança.
Deixa-te estar quieto, nada esperes que

Te impeça a inocência e a ignorância,
Pois as palavras nunca serão mais do que
Meras reminiscências, vagas, do que sentes.

[in Lábio Cortado, livro ainda inédito, Prémio de Poesia Manuel Alegre 2008]



Comentários

One Response to “Dois poemas de Rui Almeida”

  1. Bibliotecário de Babel – Acasos & coincidências on Novembro 18th, 2008 8:51

    […] Dois poemas de Rui Almeida […]

«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges