Dois poemas de Rui Lage

HORTUS CLAUSUS

O olhar sobe as escadas da paisagem.
Muros atravessam-na duplamente
em amplos charcos de água.

Pequeno pássaro pousa
pequeno pensamento
no ramo que o frio despiu.

Nevoeiro o cerca, erguendo
vagarosos braços de lama
dissolvidos pela chuva.

Cheias de musgo e de bosta
estão as pedras do passado

de algum dono aprendido

sentam-se nelas poemas
cada vez menos aptos
a falar de mim.

Uma charneca o céu
a terra uma cisterna
que transborda.

Sou levado,
mas não irei longe
com tamanha ferrugem nos olhos.


JOVEM MULHER NUMA CAPELA DE ALDEIA

Num banco junto à parede,
fértil e escura como terra lavrada,
os olhos adormecendo no incenso
que a tomava pela cintura
e lhe dava o cansaço
da madrugada.

Os cabelos negros enredando o frio
que vinha de fora
pela porta que alguém esquecera aberta
mostrando ao fundo o rio
e a laranjeira despida
pela geada.

Morte
em ambos os lados da porta
dando entrada
e súbito o dia
e depois
mais nada.

[in Corvo, Quasi, 2008]



Comentários

2 Responses to “Dois poemas de Rui Lage”

  1. LúciA on Novembro 28th, 2008 21:45

    Tão mau!
    Como é possível postar isSo? Incontinência?

  2. raquel molina on Setembro 23rd, 2009 20:27

    Desde Venezuela

    Deseo ponerme en contacto con usted, igualmente desearìa saber si tiene algunos de sus textos poèticos traducidos al español..

    Mi correo electrònicp es: raquelmolinaf@hotmail.com

    En espera de su misiva
    Raquel Molina

«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges