Dois poemas de Tatiana Faia

ficas onde outrora caminhaste mar dentro
guardaste uma impressão clara de areia
movendo-se sobre os pés
por vezes a água como pequenas esquinas
ferindo o ponto onde
te descalças e moves

contagiam-te depressa cores escuras
as noites ancoradas de portos em corinto
o preto e o cinzento azulado
que fica do hábito de endoidecer
por entre traves passa a madrugada

encho de passos lugares onde já estiveste
torno a caminhar para fora dos limites da cidade
nas primeiras madrugadas de Outono
vou endoidecendo à espera de um fio de voz
que venda o regresso à hora do labirinto

***

escrevo o teu lugar nas palmas das mãos
ao longo de muros projecto sombras gestos
o voo de pássaros e corro
pertenço às noites de rios que amas e cantam
que se escondem em poços mais profundos
precipitando-se em direcção ao inverno

sem regresso toco a música que fica
mais perto da distância
a minha partida estava já nos nós dos teus dedos
nos anéis dos teus cabelos

no teu sorrir que fios de música
teceram para que se desperdiçasse

[in revista Ítaca, n.º 1, Fevereiro de 2010]



Comentários

4 Responses to “Dois poemas de Tatiana Faia”

  1. Janaina Amado on Março 19th, 2010 19:14

    Gostei muito do ritmo entrecortado dos poemas. Para mim é novidade, o resultado me parece estranhamente belo.

  2. JP on Março 19th, 2010 19:17

    Exmo. Senhor, a moça não se chama tatiana faria mas faia. O senhor na etiqueta tem faia.

  3. JP on Março 19th, 2010 19:18

    perdão, na etiqueta tem faria.

  4. José Mário Silva on Março 19th, 2010 19:29

    Obrigado pelo aviso, JP.

«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges