Dois poemas de Tiago Patrício

OS PARDAIS DA SINAGOGA DE TUNIS

Os pardais que dormem
em frente à Sinagoga de Tunis
conhecem bem a geografia
e as rotas de migração

Da meteorologia das cidades
pressentem os parapeitos
das janelas e o calor dos corpos
pela agitação das folhas

Têm o hábito de percorrer
as enseadas e cair
das ravinas nas horas
frescas da manhã
como crianças descalças

Nos jardins fechados de Tunis
onde o sotaque francês
transpira sobre a erva seca
os pardais comuns
anoitecem em bando
como sons guturais
e agitam o ar à volta
dos minaretes na chamada
para a oração

Quando regressam
ao interior das árvores
da Sinagoga de Tunis
assustam de morte
os guardas adormecidos
com as armas pesadas
apontadas ao peito


CAÇADORES

Os caçadores são feitos de prata ou de volfrâmio
de acordo com a época e as recordações
Têm a mira no olhar e o gatilho na pulsação
do braço direito recolhido a ombrear com a bandoleira
Na boca a pólvora e o sangue cinegético
Nos ouvidos o bosque inteiro e no pensamento
venatório o silêncio dos pássaros e dos seus hábitos

Os caçadores são os mais ferozes amantes das aves
têm no olfacto o fumo e a terra molhada
e na memória os tordos, as rolas e os pombos
Namoram as aves até ao último encontro
e disparam como quem despede a infância

Tombam as aves como pedras feridas
que no restolhar das asas perdem a elegância
para o chumbo e o cartucho no avesso do ar
Mas guardam ao pescoço as últimas plumas
como paixões deflagradas no peito florido

[in O Livro das Aves (Prémio Daniel Faria 2009), Quasi, 2009]



Comentários

One Response to “Dois poemas de Tiago Patrício”

  1. Pequeno tratado de ornitologia lírica | Bibliotecário de Babel on Setembro 29th, 2009 17:05

    […] é a aproximação ornitológica, melhores são os poemas – como se pode comprovar lendo Os pardais da sinagoga de Tunis, Os pombos domésticos sobre as estátuas e Caçadores. Ou, ainda, o belíssimo Os pintassilgos de […]

«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges