Dois poemas de Vicente Martín Martín
Já tenho o inventário das batalhas
ganhas e perdidas:
as ganhas,
guardadas à chave e em baús
de zinco; não suceda
que entre sonhos as nomeie sem querer
e acaso me desperte
o fedor que expelem seus cadáveres;
as perdidas,
de tanto acostumar-me à sua presença,
levo-as no bolso e recordam-me
que existo, que estou vivo,
nas vezes mesmo em que
me cai uma lágrima e ao cabo
de um tictac de silêncios
aparece,
solitária,
uma flor.
***
Sempre o suspeitei. Desde o dia em que
o poeta escreveu que as estrelas
não eram borboletas
abrigava o receio de que algo
tinha que falhar nos teoremas.
Viver não é caminhar para a morte.
Viver é construir-se a cada instante
um novo acontecer enquanto estalam
de riso pelo céu as pombas:
A vida, portanto, inventamo-la.
Mas a morte, não. A morte precede-nos,
como a luz ao tempo,
e a ela, por inércia, regressamos.
[in Eis a dor, o que me resta, tradução de Rui Costa, Ediciones Vitruvio, 2007]
Comentários
4 Responses to “Dois poemas de Vicente Martín Martín”
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Vicente, que bem arrumaste por palavras o balanço de vida em que se mergulha. Naufrágio, uma vez ou outra.
E a morte da Llansol? Passa em branco?
João ficámos todos “em branco”…
olá,
um pingback manual:
http://vejotudoenaomorro.wordpress.com/2008/03/03/e-por-que-nao
abs