Dois poemas em prosa de José Ángel Valente

Escrever é como a segregação das resinas; não é acto, mas lenta formação natural. Musgo humidade, argilas, limo, fenómeno do fundo, e não do sonho ou dos sonhos, mas de barros escuros onde as figuras dos sonhos fermentam. Escrever não é fazer, mas sim aposentar-se, estar.

***

Jogar o jogo. Às primeiras, o jogo é torpe, sujeito a regras imitadas. Até que chega o dia em que se começa a jogar o jogo dentro do jogo, simplesmente, nas movediças fronteiras da sombra e da luz. Jacinto, ferido mortalmente pelo disco de Apolo, renasce na intensificada fragrância da flor. Jacinto e Apolo jogam: o lance é o da morte e da ressurreição.

[in revista DiVersos, n.º 13, Junho de 2008, trad. de António Cabrita]



Comentários

2 Responses to “Dois poemas em prosa de José Ángel Valente”

  1. antonio saias on Julho 31st, 2008 10:20

    o aproveitamento comercial dessas resinas implica cortes na casca e lenho das árvores produtoras

    a metáfora continua válida?

  2. José Mário Silva on Julho 31st, 2008 10:42

    Mais do que nunca, António. Da próxima vez que estiver com um poeta, peça-lhe para mostrar as suas cicatrizes.

«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges