Dor e dano

Myra
Autora: Maria Velho da Costa
Editora: Assírio & Alvim
N.º de páginas: 221
ISBN: 978-972-37-1369-5
Ano de publicação: 2008

Na cena de abertura deste romance, Myra encontra Rambo, um cão de combate ferido, numa praia atravessada por «carris desconjuntados», «chorões apodrecidos» e marcas das «marés vivas sujas de crude». O narrador assinala: «O céu estava baixo e muito escuro.» É uma caracterização meteorológica, claro, mas também metafórica. Durante o resto da narrativa – embora aqui e ali se assista a uma aberta – o horizonte das personagens permanecerá igual ao céu da primeira página: opressivo, de um violento negrume, sempre à beira da tempestade devastadora.
Myra é uma rapariga russa que deambula pelas paisagens tristes do Portugal contemporâneo, em fuga rumo ao Sul, mas com esperanças de voltar ao Leste de onde emigrou. Durante a longa jornada iniciática, sempre com o Pitbull Terrier por perto, ela revela um extraordinário instinto de sobrevivência, feito de «manha e força». Conforme as circunstâncias, ora cita Camões, ora fala como a lerdinha que não é. E assim vai avançando por entre «criaturas íngremes», através dos vários círculos do Mal, num mundo cheio de «dor e dano».
A primeira parte do romance é composta por uma sucessão de encontros on the road: com um camionista alemão, amante de uma pintora desbocada que faz lembrar Paula Rego; com um padre, heterodoxo ao ponto de dizer que «a castidade é porca» (enquanto transporta na sua carrinha uma mulher a morrer de SIDA); com um marinheiro cego e maneta chamado Alonso (como o herói do Quixote); entre outras personagens menores. Isto até descobrir Orlando/Rolando, um «rapaz pardo» que lhe aparece todo vestido de branco junto a um Land Rover também branco, «parado como um dócil corcel expectante». A partir daqui, a história como que estaca na esfera deste cabo-verdiano, a quem Myra se entrega num idílio amoroso, cortado cerce por uma cena de carjacking que precipita de vez a acção no mais sórdido sub-mundo do crime.
De certa forma, Maria Velho da Costa escolheu ficar com um pé no romance de aventuras picarescas do séc. XVIII e outro na exploração pós-moderna das possibilidades da linguagem. O seu principal mérito está justamente na forma como gere esta dicotomia, por um lado explorando e sabotando as regras romanescas clássicas, por outro abrindo o seu livro a vários idiomas (o inglês, o francês, o russo, o alemão, o italiano, o crioulo; além do português em muitos registos: do mais elevado ao calão e aos regionalismos), bem como à simples celebração da literatura, escondida em diversos envios e homenagens a outros escritores, como Herberto Helder, Manuel Gusmão, Jorge de Sena, Adília Lopes ou Helder Macedo.

Avaliação: 8,5/10

[Texto publicado no n.º 76 da revista Ler]



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«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges