Duas variações de Josep M. Rodríguez

VARIAÇÃO UNGARETTI

Na minha casa do Egipto,
a minha mãe falava-nos de sítios como este.

(Ao longe, qualquer coisa nos parece fascinante,
ao perto,
nem sequer um milagre nos surpreende.)

Entre estas muralhas está-se apenas de passagem.
A meta é o afastamento.

Sento-me no terraço
com pessoas que falam da Califórnia como se esta fosse uma propriedade sua,
e há momentos em que se me fecham os olhos.

A minha infância nem sempre foi maravilhosa.
Do passado
e do futuro
sei tudo quanto um homem pode chegar a saber.

Conheço o meu destino e conheço a minha origem,
não me resta senão resignar-me a morrer.

Não há meio-termo.

Uma a uma, explodem as estrelas.

Quando um apetite maligno me empurrava para os amores mortais,
eu escrevia poemas sobre a vida.

Agora que descobri no amor uma garantia da espécie,
agora,
tenho a morte demasiado próxima.


VARIAÇÃO VINYOLI

Por que razão deveria abrir os olhos,
se o que me rodeia já está dentro de mim.

Em vão perco o que em vão procuro.
Olhando sem olhar,
tocando sem tocar, ouvindo
sem que até mim chegue já som algum,
imóvel,
igual a uma pedra.

Pouco a pouco,
o oculto e o visível transformam-se num só
como o rio
e a sua sombra.

(E o silêncio
é escutar o coração de um anjo.)

Ponho à prova o presente:
o seu ponto de chegada sem chegada.

Pergunto-me quem sou,
quem és,
quem somos.

De pé, em frente ao abismo do silêncio,
começa a outra noite.

[in A Caixa Negra, trad. de Manuel de Freitas, Averno, 2009]



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«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges