Eduardo Mendoza: “Tento escrever como desenho, com o mesmo grau de atenção”

O escritor Eduardo Mendoza, 65 anos, nome maior das letras espanholas contemporâneas, participou na edição deste ano das Correntes d’Escritas, na Póvoa de Varzim, onde lançou o romance Mauricio ou as Eleições Sentimentais (ASA). Nesta entrevista, fala do livro, das suas circunstâncias e da sequela que está a escrever neste momento. Uma sequela que pode ficar pelo caminho, como muitas outras das suas tentativas ficcionais.

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Neste último romance, situa como sempre a acção na cidade onde nasceu, Barcelona, mas pela primeira vez num período histórico recente. O que é que o levou a abordar um momento político tão concreto como as eleições autonómicas de 1984, na Catalunha?
Para ser sincero, não sei. Um dia dei comigo a interessar-me por esse momento. Há muitos livros escritos sobre a transição para a democracia, mas ninguém se debruçara ficcionalmente sobre esta fase concreta que foi, para mim, o parêntesis pior da História Contemporânea espanhola posterior ao fim da ditadura. Após um período de alegria e grandes mudanças, começávamos a pagar a factura. A lua-de-mel acabou, deixando-nos perguntas a que não sabíamos responder: “E agora? Para onde vamos?”

Depois da euforia, o choque com a realidade.
Sim. Havia também uma crise económica muito forte, que complicava tudo.

A primeira parte do livro sugere um enredo sobre a política catalã, vista do campo socialista. Mas ao fim de apenas 90 páginas dá-se a derrota eleitoral, face aos nacionalistas conservadores de Jordi Pujol. Daí em diante, o romance muda de foco, centrando-se nos dilemas amorosos de Mauricio, o protagonista. Já tinha prevista esta inflexão quando começou a escrever ou foram as personagens que lhe roubaram a trama?
Não tinha nada previsto à partida, mas quis evitar que esta fosse uma história meramente política. O que me interessava era seguir uma pessoa enquanto ela passa por várias etapas, do entusiasmo ao desencanto. Mas se abordas uma campanha eleitoral, a dimensão política do livro vai estar sempre em primeiro plano. Não há nada a fazer. Aliás, é a mesma coisa se te lembrares de introduzir um homicídio na história: o teu livro converte-se imediatamente num policial. Neste caso, a minha ideia inicial era acompanhar o regresso de um homem à sua cidade. Porque foi isso o que me aconteceu, mais ou menos naquela altura.

Voltou de Nova Iorque, onde foi tradutor na ONU durante quase uma década.
Eu vivia em Nova Iorque e ao voltar a Barcelona encontrei uma situação que não esperava. Nos Estados Unidos e noutros lados ainda se falava da transição espanhola, mas em Espanha ela já tinha terminado.

O livro é também sobre esse culminar de um ciclo, sobre o fim das ilusões quanto a uma mudança mais radical da sociedade.
Claro. Esse desencantamento coincide com a emergência de uma geração mais jovem do que a minha, uma geração que muda de vida enquanto o país vai mudando. A evolução de Espanha coincide com a sua, na passagem da juventude à maturidade. Era esta a geração que me interessava descrever.

Descreve-a com um olhar clínico, onde outros teriam um olhar cínico.
Não quis fazer julgamentos. Se escrevo livros, é para desenhar um panorama, ver o que se passa. Habituei-me a viajar com um caderno e um lápis. Eu não tenho um grande traço, não sou um artista plástico, mas acho que me safo menos mal. E gosto do exercício de esboçar no papel as realidades com que deparo. Ao desenhar, observas coisas que à vista desarmada te escapariam. E com a escrita passa-se o mesmo. Tento escrever como desenho, com o mesmo grau de atenção.

Para que não escapem os detalhes, as coisas mínimas?
Precisamente. Não basta dizer como foram as coisas, é preciso explicá-las. E no acto de explicar, tu próprio entendes melhor o que se passou.

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O seu protagonista está longe de ser um alter-ego. Quais são as maiores diferenças entre a criatura e o criador?
Creio que Mauricio é demasiado passivo. Eu não era assim. Ele fica à espera que as coisas lhe aconteçam, revela uma atitude expectante. Não sei, talvez eu devesse tê-lo feito menos plano. Acontece que os romances, por natureza, comprimem o tempo. Se as personagens fossem tão complexas e contraditórias como as pessoas reais, os livros não acabariam nunca. Bem, houve quem fizesse quase isso, como Proust…

Em sete volumes.
Pois. É sempre preciso cortar algo e quando se corta, perde-se.

Sendo este um livro passado em Barcelona, como quase todas as suas obras, é interessante verificar que há poucas descrições da cidade. Sabemos que é ali que as coisas se passam, mas Barcelona não se vê. É quase como um estado de espírito das personagens, mais do que uma realidade física.
Eu não queria que fosse um romance sobre Barcelona. O que se passou é que me interessava contar o que realmente aconteceu na cidade durante aquela época, que não era o mesmo que acontecia em Madrid, muito pelo contrário. Durante muitos anos, Madrid foi a cidade burocrática e Barcelona a cidade rica, activa. Mas naquele período isso mudou. Barcelona perdeu importância, devido à crise económica que se seguiu à entrada de Espanha na Comunidade Europeia, uma entrada que a longo prazo trouxe grandes benefícios mas no curto prazo foi problemática. Os preços subiram muito, havia desemprego, o que também contribuiu para a decepção das pessoas. O romance termina justamente quando começa a mudança.

Ou seja, no dia em que a cidade é escolhida para organizar os Jogos Olímpicos de 1992.
Tendo esse projecto em mira, Barcelona deixa de ser uma cidade industrial para se converter numa cidade de turismo, de serviços, de grandes centros de medicina, informática, alta tecnologia. E onde antes havia fábricas, passou a haver complexos habitacionais, uma cidade moderna. Esta transformação, que se deu muito, muito depressa, era outro tema que gostaria de tratar.

Ficcionalmente, a porta está aberta. Ao chegarmos à última página do livro, fica implícito um eventual casamento entre Mauricio e Clotilde, com tudo o que isso implica. Os seus leitores podem esperar uma sequela, qualquer coisa como Mauricio e as Olimpíadas?
(Risos) O título é prematuro, mas sim, já estou a avançar numa continuação, embora não saiba ainda o que lhe vai acontecer. Eu começo muitos romances que depois ficam pelo caminho. Este é suposto passar-se dez anos mais tarde, em 1996. Mauricio e Clotilde casaram e Barcelona já mudou. Têm filhos e veremos o que lhes acontece.

A escrita corre-lhe bem?
Não, neste momento estou sem saber o que fazer. E entretanto escrevi outra coisa, uma novela.

Quando é que sabe que um romance vai mesmo até ao fim?
Isso é terrível. Nunca. Nunca sei. Às vezes, depois de terminar um livro que me consumiu quatro anos de trabalho, fico sem saber se o devo publicar ou destruir. É nessas alturas que peço ajuda à minha mulher ou a alguns amigos. Mas antes de estar concluído, nunca mostro nada a ninguém. Guardo o texto à chave.

Essa incerteza não o angustia?
Muito. Muitíssimo. Por isso peço a opinião dessas pessoas próximas. Às vezes dizem-me que sim, outras que não. E o mais normal é que digam: “esta parte está bem”, “aquele capítulo ficou grande demais” ou “isto não se percebe”.

Acolhe essas opiniões?
Sim. E volto a escrever. Mas aí já é um processo rápido. Outro motivo de angústia tem a ver com este desfasamento: o que o escritor levou vários anos a escrever, é julgado pelo leitor de uma só vez, em dois ou três dias. Sinceramente, considero um milagre o livro manter sempre o mesmo nível, porque um dia acordas optimista, noutro estás deprimido ou doente, umas vezes estás em casa, outras em viagem. Às vezes é difícil que o livro não registe tamanhas oscilações.

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O humor e o sarcasmo são marcas do seu estilo e este romance não foge à regra.
Muitas vezes me perguntam porque recorro ao humor nos meus livros e a verdade é que não há nenhuma razão. Se fosse japonês, escreveria de outra maneira. Se fosse uma mulher, também. Sou como sou e por isso escrevo como escrevo.

Alguns dos episódios mais divertidos de Mauricio ou as Eleições Sentimentais ocorrem em sessões de esclarecimento do PSOE catalão. Frequentou na altura esse tipo de acções de campanha?
Sim, claro. Foi uma época bonita. A democracia ainda estava no começo e as pessoas dos bairros pobres acreditavam que todos podiam e deviam participar no processo democrático. Eram tão empenhados quanto ingénuos. As reuniões eternizavam-se porque nunca ninguém se punha de acordo.

Mais ou menos a meio do romance surge o tema da Sida, doença nova que atinge um dos vértices do triângulo amoroso. Quando Porritos morre, há quem a associe ao fim de um tempo, que tanto pode ser o da esperança ideológica na revolução como o da verdadeira liberdade sexual.
Naqueles primeiros anos da epidemia, a Sida foi vista por muita gente como uma espécie de castigo a pairar sobre a liberdade sexual conquistada nas duas décadas anteriores. Porritos poderia simbolizar o fim dessa ilusão, como simboliza o ocaso de uma certa forma de luta política, a dos velhos militantes que se sacrificavam e corriam perigos, mas que os partidos foram afastando porque já não serviam para nada. De certa forma, Mauricio tenta lutar contra isso, contra a transformação de Porritos em símbolo. Ela é apenas uma pessoa que morreu com uma doença terrível. Mais nada. Nenhuma pessoa deve ser reduzida a um símbolo. E por isso fiz aquele epílogo em que remeto esse peso para figuras mitológicas como os anjos, que são, esses sim, símbolos de símbolos.

[Versão ampliada de uma entrevista publicada no suplemento Actual do Expresso]



Comentários

One Response to “Eduardo Mendoza: “Tento escrever como desenho, com o mesmo grau de atenção””

  1. arthur on Julho 15th, 2009 18:24

    ola cartao

«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges