Elogio dos alfarrabistas
Foi escrito por Carlos Drummond de Andrade e intitula-se O Sebo (alfarrabista em português do Brasil). Uma passagem:
«Os fregueses, mesmo não se dando a conhecer uns aos outros, são todos conhecidos como freqüentadores crônicos de sebo. Caras peculiares. Em geral usam roupas escuras, de certo uso (como os livros), falam baixo, andam devagar. Uns têm a ponta dos dedos ressecada e gretada pela alergia à poeira, mas que remédio, se a poeira é o preço de uma alegria bibliográfica?
Formam uma confraria silenciosa, que procura sempre e infatigavelmente uma pérola ou um diamante setecentista, elzeviriano, sabendo que não o encontrará nunca entre aqueles restos de literatura, mas qualquer encontro a satisfaz. Procurar, mesmo não achando, é ótimo. Não há a primeira edição dos Lusíadas, mas há a do Eu, e cumpre negociá-la com discrição, para que o vizinho não desconfie do achado e nos suplante com o seu poder econômico. À falta da primeira, encontra-se a segunda, ou outro livro qualquer, cujo preço já é uma sugestão: “Me leva.” Lá em casa não cabe mais nem um aviso de conta de luz, tanto mais que as listas telefônicas estão ocupando o lugar dos dicionários, mas o freqüentador de sebo leva assim mesmo o volume, que não irá folhear. A mulher espera-o zangada: “Trouxe mais uma porcaria para casa!” Porcaria? Tem um verso que nos comoveu, quando a gente se comovia fácil, tem uma vinheta, um traço particular, um agrado só para nós, e basta.»
O texto completo pode ser lido aqui.
Comentários
5 Responses to “Elogio dos alfarrabistas”
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É mesmo muito bom. Sou cá de Belo Horizonte, Brasil, onde o Carlos estudou por muitos anos. E sou leitor do senhor desde o início deste Bibliotecário. Abraço.
Não sei até que ponto a expressão será exclusiva (ou mesmo proveniente) do «português do Brasil»… É a terceira acepção do dicionário da Porto Editora, por exemplo, e sempre a ouvi em Lisboa.
Caro jjleiria,
Eu não digo que a expressão seja exclusiva do Brasil, apenas que é assim que toda a gente por lá designa estes “domadores de livros”.
Dito de outro modo, em Lisboa também há quem use a palavra sebo mas no Brasil ninguém usa a palavra alfarrabista.
Certo, Ed?
Certíssimo.
[...] Elogio dos Alfarrabistas – Bibliotecário de Babel; [...]