Encher páginas

A 4 de Janeiro de 1991, nos tempos áureos de O Independente, Miguel Esteves Cardoso assinou uma daquelas crónicas que só ele tinha coragem, lata, génio, discernimento ou falta de vergonha na cara para fazer. O texto intitulava-se 1991. Calendário da Depressão (lembro-me bem dos pormenores porque a vi recentemente emoldurada numa casa particular) e começava assim: «um de janeiro. depois, dois de janeiro. depois, três de janeiro. depois, quatro de janeiro. depois, cinco de janeiro. depois, seis de janeiro. depois, sete de janeiro.»; etc. Um etc. que ia até ao final de Dezembro: «depois, vinte e oito de dezembro. depois, vinte e nove de dezembro. depois, trinta de dezembro. depois, trinta e um de dezembro.» Lembrei-me dessa crónica ao folhear, ontem à tarde, o último romance de Douglas Coupland editado em Portugal: jPod (Teorema), uma «versão de Inforscravos para a geração Google», escrita de forma a replicar as experiências de leitura na Web 2.0. Imperam por isso as brincadeiras gráficas: listas para todos os gostos, caracteres chineses ampliados, variações sobre a linguagem das mensagens de spam, etc. Às tantas, a meio da história, passada numa empresa de videojogos, alguém se lembra de enviar aos colegas os cem mil primeiros dígitos do número pi: 3,141592653589793238462643383279502884197169, etc. Um etc. que se estende por mais de 20 páginas, logo seguido por outra série de algarismos, desta vez gerados aleatoriamente, que ocupam outras 21 páginas.
Enfim, tudo isto pode parecer gratuito ou uma mera provocação pós-moderna, mas prefiro os desaforos do MEC e de Coupland às páginas cheias de trabalhosa e trabalhada palha com que muitos esforçados cronistas e romancistas nos contemplam.



Comentários

2 Responses to “Encher páginas”

  1. anita on Fevereiro 27th, 2009 14:17

    Não conhecia essa crónica do senhor MEC…
    Tenho investigado esse tipo de procedimentos no campo das artes plásticas … O polaco Opalka, por exemplo, desde 1965 enche telas com sequências numéricas: começou no 1, depois o 2 e por aí fora até ao infinito…numa espécie de sacrificio pictórico em branco sobre cinza. Para ele, o processo é uma forma de medir (ou sentir) o tempo, e reforça-o ao fotografar-se em frente à tela no fim de cada dia de trabalho…

  2. José Mário Silva on Fevereiro 27th, 2009 14:18

    Vou procurar coisas sobre esse Opalka, que não conhecia. Obrigado pela dica.

«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges