Enquanto as bombas caem

rawi1.jpg

Como a Raiva ao Vento
Autor: Rawi Hage
Título original: De Niro’s Game
Tradução: Teresa Fernandes Swiatkiewicz
Editora: Civilização
N.º de páginas: 284
ISBN: 978-972-26-2614-9
Ano de publicação: 2008

Natural de Beirute, Rawi Hage (n. 1964) está radicado há 15 anos no Canadá, onde escreveu este belíssimo primeiro romance directamente em inglês (a sua terceira língua, depois do árabe e do francês). Em Junho, foi-lhe atribuído o valioso IMPAC Dublin Literary Award – deixando para trás figuras de peso, como Philip Roth, Thomas Pynchon ou Martin Amis.
Para comprovar que a euforia em torno de Hage se justifica, basta ler as primeiras páginas do livro. Na Beirute de início dos anos 80, dividida ao meio pela guerra civil, deparamos com uma aproximação ao Inferno: bombas caindo sem parar, escombros e mais escombros, gritos e poeira, falta de água, violência gratuita, o cheiro da morte e a realidade desdobrando-se com a vertigem absurda das alucinações. Deste cenário dantesco emergem então o narrador, Bassam, e o seu melhor amigo, George, dois rapazes de “camisas abertas com o maço de Marlboro preso nas mangas enroladas, refugos da escola, niilistas implacáveis com armas”.
Bassam trabalha no porto, manobrando um guindaste; o outro numa casa de jogos. Fumam haxixe, seduzem raparigas, andam de moto pelo sector Oriental com gasóleo roubado, metem-se em esquemas para arranjar dinheiro e outros sarilhos característicos da pequena criminalidade. Não sabem o que é o medo. Ignoram as balas dos snipers e nunca descem aos abrigos, nem mesmo quando as explosões se aproximam tanto que desfazem o vidro das janelas, porque morrer só faz sentido “a céu aberto”.
A amizade começa a vacilar no dia em que George adere a uma milícia cristã, mais tarde envolvida no massacre de palestinianos em Sabra e Shatilla. As traições sucedem-se, Bassam fica isolado e afunda-se aos poucos, depois de passar por várias experiências-limite: a orfandade, a prisão, a tortura, o prazer da vingança, o cerco do desencanto mais negro. Quando já não há escapatória, foge de barco para Marselha e daí para Paris, só para descobrir que as histórias deste tipo são sempre mais complexas do que aparentam.
Hage atravessa estas águas turvas com impressionante à-vontade e a arquitectura romanesca mostra-se capaz de resistir a sismos com oito graus na escala de Richter. Por exemplo, a longa elipse que permite transferir para as últimas páginas a cena central do livro (um jogo de roleta russa inspirado no filme O Caçador) é simplesmente magistral. O que eleva a escrita de Rawi Hage acima da média, porém, são os seus recursos estilísticos, a sua toada poética que tanto se alimenta das mais delicadas construções verbais da lírica árabe como das simbologias bíblicas (veja-se a repetição sistemática do número “dez mil”, a que se refere a epígrafe retirada do Livro de Ezequiel).
Hage não só domina a arte do diálogo e controla muito bem o ritmo da prosa, apostando em cenas curtas mas muito intensas, como cria surpreendentes nós de intensidade dramática, através de efeitos de acumulação que se sobrepõem à ordem narrativa linear, iluminando-a e conferindo-lhe uma espécie de textura quase táctil. Eis um exemplo:

“Saltei para a motocicleta do George, sentando-me atrás dele, e dirigimo-nos para as ruas principais, onde as bombas tinham caído, onde, certa vez, uns diplomatas sauditas tinham ido buscar umas prostitutas francesas, onde os antigos Gregos haviam dançado, onde os Romanos se haviam instalado, os Persas afiado as espadas, os Mamalucos saqueado a comida da terra, os Cruzados comido carne humana e os Turcos escravizado a minha avó.”

Outro exemplo:

“No terraço havia um grande barril de água, sob o qual eu costumava esconder coisas. Tirei um pedaço de mangueira, enrolei-a em volta da cintura e esperei que o George aparecesse. A Lua estava redonda e pairava sobre a minha cidade. Nós, eu e a Lua, observávamos as velas acesas que tremeluziam calmamente nos quartos das jovens virgens que se vestiam para ir dormir, enfiando-se nas suas camas de solteiras, atirando os cabelos penteados sobre as almofadas de penas de ganso, enchidas por avós, portadoras de nomes como Djamilé e Georgette, encobrindo os pêlos púbicos sob os lençóis de algodão e seda, sonhando com homens brancos sem pêlos e com carros desportivos, trajando fatos provincianos e contando contos de fadas numa língua estrangeira, em segredo, de tal modo que os dedinhos dos seus pés se encolhiam sob os lençóis, longe dos olhares das suas mães.”

Avaliação: 8,5/10

[Versão ampliada de um texto publicado no suplemento Actual do Expresso]



Comentários

One Response to “Enquanto as bombas caem”

  1. Bibliotecário de Babel – No melhor pano cai a nódoa on Agosto 28th, 2008 23:31

    […] de Babel – De lado em Não me posso queixarana em O acontecimento literário do anoBibliotecário de Babel – Enquanto as bombas caem em Rawi Hage arrebata o IMPAC Dublin Literary AwardLuís Rodrigues em Luís Miguel Rocha no […]

«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges