Epifanias sulistas

Os Ventos e outros contos
Autora: Eudora Welty
Tradução: Diana Almeida
Editora: Antígona
N.º de páginas: 234
ISBN: 978-972-608-200-2
Ano de publicação: 2008

Depois de Flannery O’Connor, cujos romances e contos vêm sendo publicados nos últimos anos pela editora Cavalo de Ferro (com um merecidíssimo reconhecimento da crítica), é tempo de saudar uma outra grande escritora norte-americana que, embora mais discreta, também fixou com extraordinária nitidez a paisagem física, humana, social e política dos estados do Sul – particularmente o Mississípi, onde nasceu e ficou toda a vida. Muito por culpa da singularidade da sua escrita – complexa e assumidamente feminina –, Eudora Welty (1909-2001) demorou a escapar ao estigma do regionalismo e à sombra de Faulkner, mas é hoje considerada, nos EUA, uma das escritoras mais importantes do século XX.
Até agora inédita em Portugal, Welty chega-nos pela mão de Diana Almeida, especialista da sua obra (sobre a qual escreveu uma tese de doutoramento) e tradutora desta antologia que procura «dar uma visão de conjunto da ficção curta» weltyana, dos seus primórdios (A Curtain of Green and Other Stories, 1941) até 1963, data de uma narrativa solta, publicada na revista New Yorker. De fora ficou apenas o ciclo de contos The Golden Apples (1949), «uma sequência de histórias interligadas» que Diana Almeida diz merecer «uma futura tradução no seu conjunto».
Fotógrafa experiente, Eudora Welty fez de cada texto um prodigioso trabalho de enquadramento visual e psicológico das suas personagens, muitas vezes surpreendidas em retratos de grupo – atente-se nas rodopiantes matronas de Lily Daw e as Três Senhoras; no bando de homens que passam um rio a pente fino, em A Rede Larga, à procura de um cadáver que lá não está; ou nos passageiros fechados numa mesma carruagem de comboio, em A Noiva do Innisfallen. Observados de perto, os textos não escondem uma matriz clássica (há mesmo arquétipos recorrentes, como o da viagem) mas apenas para avisar que essa matriz está ali para ser desconstruída. O exemplo mais flagrante será Circe, inversão de um célebre episódio da Odisseia, com
o ponto de vista transferido de Ulisses para a feiticeira que transformava homens em porcos, mas o efeito paródico está quase sempre presente, muitas vezes com recurso ao humor e ao sarcasmo, capaz de pôr a nu incongruências morais ou os equívocos que minam as relações entre as pessoas.
Neste processo de focagem e desfocagem, há ainda lugar para trechos de um lirismo esmagador, quando Welty suspende a acção e se entrega a epifanias despertadas por evocações da natureza em estado bruto, seja sob a forma de uma tempestade equinocial (catalisadora de uma passagem da infância à adolescência em Os Ventos), seja como projecção do mundo interior de dois solitários à deriva, nesse esboço de uma paixão impossível a sul do Sul que é Sem lugar para ti, meu Amor, o mais belo destes belíssimos contos.

Avaliação: 9/10

[Texto publicado no suplemento Actual, do Expresso]



Comentários

One Response to “Epifanias sulistas”

  1. Jorge Pereira on Fevereiro 18th, 2009 20:44

    I am glad to see the publication of Welty in Portugal. She is a master of the short story. Her descriptions and depictions of life in the American south are amazing. This should be a treat for anyone who reads it.

«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges