Escrever na pedra

Na visão da Torre de Babel pintada por Brueghel, houve sempre um detalhe que me fascinou. A torre, a cidade e o porto erguem-se no centro do quadro mas em segundo plano. Na cena mais próxima do nosso olhar, uma espécie de triângulo rectângulo baixinho que fica no canto inferior esquerdo, há um homem de alta condição (provavelmente rei) que caminha pelo meio dos operários que se prostram de joelhos à sua passagem. Os operários são canteiros que gravam inscrições em enormes blocos de pedra. Em que língua? Não sabemos, mas ao fundo está Babel…
Daqui de onde os vejo, aqueles blocos de pedra parecem-me páginas de livros incompletos, onde os operários humildes como os mais humildes (e por isso talvez escritores, talvez tradutores) tentam em vão contar a história do que se passa lá atrás, numa paisagem muito mais próxima da Flandres do século XVI do que do Velho Testamento.

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«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges