Esta noite, 21h30, em Belém

O dia mundial do Livro também é o dia nacional da (regressada) Ler. A festa é mais logo, a distribuição da revista só começa amanhã, mas já se pode ir espreitando o look do novo grafismo:

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Em jeito de pré-publicação, deixo aqui três dos textos que escrevi para o dossier dos “50 autores mais influentes do século XX e o que aprendemos ou devíamos ter aprendido com eles”:

Jorge Luis Borges (1899-1986)

Tal como Joyce, foi esquecido pela Academia Sueca, tão lesta a entregar o Nobel a escritores menores. A bem dizer, nunca necessitou desse tipo de caução. A sua fama, ganhou-a com textos buriladíssimos – ficções labirínticas, poemas de uma elegância clássica, ensaios desvairadamente enciclopédicos – e com a pose de sábio cego, feliz no recato de uma biblioteca sem limites, alimentando-se apenas da música das palavras. Erudito, bibliómano, Borges é o escritor por antonomásia, o homem que tinha na cabeça a Literatura toda (das 1001 Noites às sagas islandesas, de Cervantes a Chesterton) e a soube reinventar em livros que são como jogos de espelhos em que se aprisiona o infinito. A sua escrita, cerebral e de uma lógica avassaladora, prestou-se a todo o tipo de pastiches. Poucos autores do século XX terão influenciado tantos bons escritores e tantos maus epígonos, iludindo-se estes com a aparente facilidade de imitar o que afinal era inimitável.

O que nos ensinou: uma biblioteca pode ser um lugar mais aventuroso do que a selva amazónica

Primo Levi (1919-1987)

“Há dois tipos de sobreviventes do Holocausto: os que calam e os que falam”, disse um dia este discreto químico italiano – vítima, como tantos outros judeus, das atrocidades que fizeram de Auschwitz um “buraco negro” na História do século XX. Após o fim da guerra, Levi, que nunca deixou de ser o prisioneiro n.º 174517 (número que substitui o epitáfio na sua campa), escolheu falar do horror nazi em vários dos seus livros, um dos quais, Se Isto é um Homem, crónica quase científica do que se passou, narrada de forma objectiva e destituída de pathos, viria a transformar-se num dos melhores reflexos literários do “dever de memória” que pesava sobre quem conseguiu escapar do inferno.

O que nos ensinou: uma posição ética inabalável perante a barbárie nazi

André Breton (1896-1966)

Com o Manifesto do Surrealismo (1924) explicou ao que vinha: a procura de automatismos psíquicos capazes de expressar o funcionamento real do pensamento, “na ausência de qualquer vigilância exercida pela razão e para além de qualquer preocupação estética ou moral”. O resultado foi uma revolução, em França e em várias artes (da poesia à pintura), que chegou tarde e suavizada a Portugal. “A beleza será convulsiva ou não será”, dizia Breton, Papa do movimento e responsável-mor pelos seus cismas.

O que nos ensinou: a escrita automática como forma de arrombar as portas do inconsciente



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«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges