Está tudo no YouTube
«PLACO
está tudo no youtube
podem ver
toda a gente pode ver
FISA
nós entrámos pela sala
éramos seis
rapazes e raparigas
CRINA
entrámos pela sala e partimos tudo
partimos cadeiras
LUGA
partimos mesas
GARO
partimos o quadro preto
SÍBIA
partimos braços
CRINA
partimos a cara aos professores
FISA
no youtube a imagem não é muito boa
mas dá para ver que sou eu a dar com a cadeira
nas costas de um professor
GARO
eu filmei tudo com o telemóvel
SÍBIA
a gente a empurrar os professores
à estalada neles
LEMA
eu não estava lá
não vi nada
PLACO
eu não sabia que alguém tinha uma arma
CRINA
eu levei a arma só para assustar
é do meu pai
LEMA
eles queriam que eu fosse com eles
eu disse que não
eu tentei convencê-los
FISA
deitámos as estantes ao chão
CRINA
eu não ia disparar
eu só puxei da arma para lhes mostrar
quem é que mandava
LEMA
fecharam-me numa despensa
porque sabiam que eu ia contar
passei aquele tempo todo na despensa
PLACO
quando vi a arma não disse nada
nunca pensei que estivesse carregada
GARO
só estando lá é que dá para perceber
os professores todos em pânico
SÍBIA
os professores de joelhos a chorar
GARO
e eu a filmar tudo com o telemóvel
FISA
e eu ao pontapé à professora de matemática
SÍBIA
eu com uma lata de spray a pintar a parede
LUGA
e então eu peguei na arma
fiquei cego, percebem
eu só conseguia pensar no professor
no que eles tinham feito ao professor
PLACO
a gente chama-lhe professor
porque era o único que nos ensinava
aos outros não chamávamos professores
LUGA
filhos da puta
CRINA
aos outros chamávamos filhos da puta
FISA
o professor não gostava que a gente lhes chamasse isso
LUGA
o professor era bom demais
LEMA
eu disse-lhes que se o professor estivesse ali
ia dizer o mesmo que eu
o professor não ia querer que eles fizessem aquilo
LUGA
filhos da puta
LEMA
mas eles fecharam-me na despensa
CRINA
quando reparei estava uma data de gente nas janelas a espreitar
FISA
uns gritavam, outros aplaudiam
SÍBIA
eu até pensei que fosse um relâmpago
PLACO
um relâmpago seguido logo de um trovão
LUGA
eu disparei
SÍBIA
como se tivesse caído um relâmpago ali na sala
CRINA
os que estavam na janela começaram a gritar
GARO
e eu nunca parei de filmar
era como se estivesse a ver um filme
como se não estivesse lá
LEMA
eu juro que não estava lá
eu estava na despensa quando ouvi o tiro
PLACO
não tínhamos outra opção
eles não nos quiseram ouvir
nós tentámos falar
LUGA
nós tínhamos que fazer alguma coisa
FISA
porquê?
SÍBIA
eles querem saber porquê
PLACO
ainda bem
foi por isso
CRINA
para nos ouvirem
LUGA
foi por isso que eu disparei
GARO
foi por isso que eu filmei
FISA
eles não queriam ouvir-nos
PLACO
eles escolheram não ouvir
LUGA
mas toda a gente ouve um tiro
GARO
não se pode escolher
não ouvir um tiro
SÍBIA
agora toda a gente quer saber porquê
FISA
agora querem ouvir
PLACO
nós contamos
LUGA
estamos aqui para contar porquê
LEMA
se calhar não vão perceber
PLACO
se calhar nem nós percebemos
CRINA
mas vamos contar à mesma»
[Prólogo da peça teatral Coro dos Maus Alunos, de Tiago Rodrigues, in Panos - Palcos Novos Palavras Novas n.º 4, edição Culturgest, 2009]
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