Estilhaços orgânicos

«Alguém lhe removeu do rosto os cacos de vidro. O homem falou sem parar durante toda a operação, usando um minúsculo instrumento a que chamou pinça de pontas triangulares para extrair os pequenos fragmentos de vidro que não tinham penetrado profundamente na pele. Disse que a maior parte dos casos mais graves estava em hospitais da baixa ou no hospital de campanha montado num cais. Disse que estavam a receber bem menos sobreviventes do que o esperado. Os médicos e os voluntários cruzavam os braços, sem nada para fazer, disse, porque grande parte das pessoas de quem eles estavam à espera tinham ficado lá longe, nas ruínas. Disse que ia usar uma pinça maior para os fragmentos mais profundos.
— Quando há atentados cometidos por bombistas suicidas. Se calhar o senhor não quer ouvir isto.
— Não sei.
— Nos lugares onde isso acontece, os sobreviventes, as pessoas ali próximas que ficam feridas, por vezes, passados meses, desenvolvem inchaços, à falta de um termo melhor, inchaços esses que são causados por pequenos fragmentos, pedacinhos minúsculos do corpo do bombista suicida. O bombista fica literalmente feito em pedaços, e fragmentos da carne e dos ossos são projectados em todas as direcções com tal força e velocidade que ficam encravados, presos no corpo de qualquer pessoa que se encontre no seu raio de alcance. Custa a crer, não acha? Uma estudante está sentada num café. Sobrevive ao ataque. Depois, meses mais tarde, os médicos encontram estes bagozinhos de carne, como se fosse chumbo fino, grãozinhos de carne humana que mergulharam na pele. Chama-se a isto estilhaços orgânicos.»

[in O homem em queda, de Don DeLillo, tradução de Paulo Faria, Sextante, 2007]



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«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges