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Exercício de ocultamento

«Toda a obra menor tem um autor secreto e todo o autor secreto é, por definição, um escritor de obras-primas. Quem é que escreveu tal obra menor? Aparentemente um escritor menor. A mulher deste pobre escritor pode testemunhar isso, ela viu-o sentado à mesa, inclinado sobre as páginas em branco, a retorcer-se e a deslizar a sua caneta sobre o papel. Parece uma testemunha irrebatível. Mas o que ela viu é só a parte exterior. A carapaça da literatura. Uma aparência – disse o velho ex-escritor a Archimboldi e Archimboldi lembrou-se de Ansky. – Quem na verdade está a escrever essa obra menor é um escritor secreto que só aceita os ditados de uma obra-prima.
O nosso bom artesão escreve. Está enfronhado naquilo que vai plasmando bem ou mal no papel. A sua mulher, sem que ele o saiba, observa-o. Efectivamente, é ele quem escreve. Mas se a sua mulher tivesse uma visão de raios X aperceber-se-ia de que não assiste propriamente a um exercício de criação literária, mas sim a uma sessão de hipnotismo. No interior do homem que está sentado a escrever não há nada. Nada que seja ele, quero dizer. Quão melhor faria esse pobre homem dedicando-se à leitura. A leitura é prazer e alegria de estar vivo ou tristeza de estar vivo e sobretudo é conhecimento e perguntas. A escrita, em compensação, costuma ser vazio. Nas entranhas do homem que escreve não há nada. Nada, quero dizer, que a sua mulher, num dado momento, possa reconhecer. Escreve por ditado. O seu romance ou poemário, decentes, decentezinhos, saem não por um exercício de estilo ou vontade, como o pobre desgraçado julga, mas sim graças a um exercício de ocultamento. É necessário que haja muitos livros, muitos pinheiros encantadores, para que escondam de olhares avessos o livro que realmente importa, a maldita gruta da nossa desgraça, a flor mágica do Inverno!
Desculpe as metáforas. Às vezes excito-me e fico romântico. Mas escute. Toda a obra que não seja uma obra-prima é, como lhe dizer, uma peça de uma vasta camuflagem. Você foi soldado, calculo, e já sabe ao que me refiro. Todo o livro que não seja uma obra-prima é carne para canhão, infantaria esforçada, peça sacrificável dado que reproduz, de múltiplas maneiras, o esquema da obra-prima. Quando compreendi esta verdade deixei de escrever. A minha mente, porém, não deixou de funcionar. Pelo contrário, ao não escrever
funcionava melhor. Perguntei-me: porque é que uma obra-prima precisa de estar oculta?, que estranhas forças a arrastam para o segredo e o mistério?
Já sabia que escrever era inútil. Ou que só valia a pena se uma pessoa estiver disposta a escrever uma obra-prima. A maior parte dos escritores engana-se ou brinca. Talvez enganar-se e brincar seja a mesma coisa, as duas faces da mesma moeda. Na realidade, nunca deixamos de ser crianças, crianças monstruosas cheias de dói-dóis e de varizes e de tumores e de manchas na pele, mas crianças afinal, isto é, nunca deixamos de nos agarrar ferreamente à vida dado que somos vida. Também se poderia dizer: somos teatro, somos música. De igual maneira, pouco são os escritores que renunciam. Brincamos a julgarmo-nos imortais. Enganamo-nos no
julgamento das nossas próprias obras e no julgamento sempre impreciso das obras dos outros. Vemo-nos no Nobel, dizem os escritores, como quem diz: vemo-nos no Inferno.»

[in 2666, de Roberto Bolaño, págs. 901-902, trad. de Cristina Rodríguez e Artur Guerra, Quetzal, 2009]



Comentários

2 Responses to “Exercício de ocultamento”

  1. PedroL on Setembro 15th, 2009 9:30

    Olá José, por acompanhar o teu e outros tantos blogues dedicados à literatura devo confessar que estou em pulgas para começar a ler o 2666. O que gostava de saber é se já saiu para os escaparates a obra em português? forte abraço! PedroL

    • José Mário Silva on Setembro 15th, 2009 9:40

      Pedro,

      O livro é lançado no dia 25 à noite. Estará disponível nas livrarias, julgo, a partir de dia 26.

      Leia os últimos textos publicados
      «Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges