Exortação ao crocodilo

Deixem Falar as Pedras
Autor: David Machado
Editora: D. Quixote
N.º de páginas: 331
ISBN: 978-972-20-4503-2
Ano de publicação: 2011

O arranque de Deixem Falar as Pedras, segundo romance de David Machado, é daqueles que nos agarram logo pelos colarinhos. Sem preâmbulo, entramos de chofre no quotidiano atribulado de Valdemar, o narrador, adolescente obeso que aterroriza os colegas de escola, quando não anda aos beijos e a ouvir bandas de heavy metal com Alice, a pseudo-namorada anoréctica. As suas angústias, frustrações e actos de rebeldia vão sendo escritos à mão num caderno que por vezes rasura, a preto, para esconder os momentos de maior fragilidade emocional. E é aqui que começa o triunfo de David Machado neste livro. Antes de tudo o resto, temos uma voz cheia de raiva e desespero, de energia e desassombro, com qualquer coisa que remete para o subjectivismo radical de Holden Caulfield, a lendária personagem de Salinger. Só para conhecer esta voz, intensa como poucas na literatura portuguesa recente, já não daríamos por mal empregue a leitura do romance.
Depois, aos poucos, vamos conhecendo o cenário familiar em que Valdemar cresceu. O pai controlador, obcecado com o Antigo Egipto e a numismática, incapaz de lidar com a desconformidade social do filho. A mãe jornalista, sempre em reportagem algures, afectuosa mas ausente. E o avô que foi viver lá para casa dez anos antes, figura misteriosa com um passado de heroísmo sangrento, três dedos a menos na mão direita, muito mau feitio e palavrões sempre na ponta da língua. Este homem de acção, porém, apagou-se sem glória, queimando agora os dias a ver telenovelas em série.
É para resgatar o avô do marasmo que Valdemar decide transcrever para um caderno (paralelo ao seu diário com rasuras) todas as histórias ouvidas ao longo dos anos. A sua missão, no fundo, é «abrir o buraco onde a verdade foi enterrada» e desentranhá-la da vasta rede de mentiras que desgraçaram a existência de Nicolau Manuel, desde o dia funesto, há mais de meio século, em que esteve para casar com o amor da sua vida, Graça dos Penedo. Tendo o avô mal-aventurado como única fonte, Valdemar não ignora que o trabalho de iluminar o passado será sempre precário («aconteceu tudo há tanto tempo que as palavras se encheram de sombras e poeira»), mas avança ainda assim. Sem surpresa, a narrativa que emerge é a de um percurso de azares, equívocos, traições e perversidades sem nome – a que não falta, por vezes, uma ironia cruel.
Durante décadas de sofrimento contínuo, Nicolau Manuel experimenta todo o horror do salazarismo. Conhece o pior das piores prisões (Caxias, forte de Peniche, Tarrafal), é espancado e torturado até ao limite do imaginável, partem-lhe os ossos, desfazem-lhe o corpo, torna-se involuntariamente uma figura mítica da luta anti-fascista, ganha e perde identidades, enlouquece, passa por fantasma. Em suma, roubam-lhe a vida, deturpam-na através de uma espécie de «censura existencial», substituem-na por «sopros avulsos, vácuo». Ele é o homem desapossado, o homem que «não é dono nem da sua própria história». E, no entanto, resiste. «Mesmo quando isto era tudo dinossauros, já havia crocodilos», diz a certa altura a mãe de Valdemar. Milhões de anos depois, «viemos nós, os seres humanos, com os nossos automóveis e as nossas cidades e as nossas guerras, e os crocodilos, como se não fosse nada com eles, como se tivessem mais em que pensar do que morrer, sobreviveram». Valdemar conclui: «O avô é um crocodilo.» Um crocodilo que ele venera e deseja a todo o custo redimir.
Há momentos em que o romance perde algum fôlego e foco (embrenha-se demasiado no seu próprio labirinto ficcional), mas as últimas páginas recuperam a força das primeiras. O problema das histórias, diz-nos David Machado, é que «podemos olhar para elas de vários lados e ângulos e a história nunca parece a mesma». Algo que Valdemar aprenderá a seu modo, mas talvez tarde demais.

Avaliação: 8/10

[Texto publicado no n.º 103 da revista Ler]



Comentários

One Response to “Exortação ao crocodilo”

  1. Diogo Madre Deus sobre David Machado | Bibliotecário de Babel on Setembro 17th, 2011 17:54

    […] (do Expresso), o editor da Cavalo de Ferro destacou e elogiou o segundo romance de David Machado: Deixem Falar as Pedras (Dom […]

«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges