Falta de esmero

Um dos aspectos em que as editoras portuguesas infelizmente menos apostam, hoje em dia, é na qualidade da revisão dos livros que publicam. Ao dizer isto, nem sequer me refiro à escandalosa profusão de gralhas e erros ortográficos em que o leitor tropeça com uma frequência assustadora (alguns deles de bradar aos céus), talvez reflexo de uma decadência cultural que estranhamente já não choca ninguém. Aquilo de que falo é outra coisa: a ausência de uma leitura minimamente crítica dos textos a publicar, capaz de identificar e corrigir os deslizes que os autores (mas também os tradutores), na sua cegueira ou imperícia, cometem.
Querem um exemplo? O último romance de Pedro Paixão, sobre o qual falei aqui. Sem ser exaustivo, encontrei estes erros óbvios:

— Pág. 12: “A sua última paixão chama-se Cate Blanchet.”; pág. 198: “Becket deve ser sussurrado.” (O nome da actriz australiana é Cate Blanchett; o apelido do escritor irlandês é Beckett; talvez haja aqui um problema com as consoantes dobradas.)

— Pág. 70: “Por vezes vão ver jogar os Knickers.”; pág. 77: “Já não consegue receber um presente dele, uma ida a Miami, um jogo dos Knickers, uns sapatos Fendi, sem pensar de onde vem todo aquele dinheiro.” (A palavra knickers designa “roupa interior feminina”; a equipa de basquetebol de Nova Iorque chama-se New York Knicks; a repetição do lapso mostra que não é um lapso; e, no caso improvável de se tratar de uma ironia propositada de Paixão, que até pode ser um escrupuloso fã da NBA, não há nada que a sustenha ou justifique.)

— Pág. 75: “Em casa dela lê Marcel Proust. Em francês. Vai durar até ao fim da minha vida. Nove volumes. Um exagero.”; pág. 91: “Gostaria de poder reler os sete volumes de Proust depois de os ler uma primeira vez.”; pág. 106: “Obviamente não se esqueceu dos comprimidos. Nem dos nove volumes de Proust. Não quis levar mais livro algum.” (Para a protagonista de Rosa Vermelha em Quarto Escuro, a obra-prima de Proust tem um número flutuante de volumes; na verdade são sempre sete.)

— Um dos locais da (pouca) acção é uma quinta lindíssima, em Sintra. Mas também aqui a nomenclatura oscila. Se o narrador começa por dizer que se trata da Quinta das Rosas (páginas 112, 126, 150, 151), logo a transforma em Quinta das Flores (nas páginas 189 e 190), para voltar a ser Quinta das Rosas (a meio da pág. 204) e novamente Quinta das Flores (no fim da mesmíssima página 204). Sete páginas adiante, regressamos à Quinta das Rosas, que ainda vai a tempo de se transmutar, quase no fim, em Quinta das Flores (pág. 238).

— Na página 53/54, é referida a morte de Chet Baker, “com uma sobredose de heroína atirando-se do terceiro andar de um hotel barato em Amesterdão”. Na página 148, o trompetista volta “a deixar-se cair, a atirar-se”, mas desta vez é “do quarto andar do hotel barato em Amesterdão”. (Na verdade, Baker caiu do segundo andar e ainda hoje não há a certeza de que o músico se tenha suicidado.)

— O nome do poeta Herberto Helder aparece quase sempre com a grafia correcta, excepto na página 214 (“Herberto Hélder”).

Uma análise deste tipo pode ser igualmente arrasadora para outros livros recentemente lançados, como o Comboio Nocturno para Lisboa, de Pascal Mercier, no qual abundam os erros ortográficos (“espiação” em vez de expiação; cadeiras com “acento” em vez de assento; etc.), de tradução (na página 176, por exemplo, há um “escurecer” onde devia existir um amanhecer ou clarear) e de raccord (uma fita de cetim negro que se transforma em fita de veludo negro, para voltar depois a ser fita de cetim negro). Pelo que pude apurar, estes erros no livro de Mercier foram corrigidos em edições posteriores mas isso não apaga, como é óbvio, o mau trabalho inicial.
Citei dois livros de duas editoras de prestígio (a Bertrand e a Dom Quixote), pertencentes a dois importantes grupos editoriais (o Direct Group/Bertelsmann e a LeYa). Muitos outros chumbariam em semelhante escrutínio. E o que me preocupa é justamente isso: sentir que esta falta de esmero começa, cada vez mais, a ser a regra e não a excepção.



Comentários

4 Responses to “Falta de esmero”

  1. Leitor atento on Maio 3rd, 2008 12:25

    Agora imagine isso em livros académicos. É um bodo aos pobres.

  2. Catarina S. on Maio 5th, 2008 18:27

    Concordo plenamente. De facto, como revisora (de periódicos e livros), o tema é-me especialmente caro. Uma coisa é deixar passar uma ou outra gralha, o que já nem sequer seria desejável, mas realmente grave é ver livros (de editoras supostamente respeitáveis) pejados de erros ortográficos e erros de tradução. Um exemplo que me vem logo à memória são as traduções da Quetzal de vários livros do Irvine Welsh, mas também em edições da Casa das Letras já apanhei cada coisa…
    Um erro que encontro repetidamente, por exemplo, é a tradução do verbo “pretend”, em inglês, como “pretender” (em vez de fingir, como se aprende no 6º ou 7º ano. Será que só a mim é que ensinaram os “false friends”?). É triste, de facto. Preocupante. E mais triste é enviar o CV todos os anos para muitas dessas editoras e nem sequer receber resposta. E, enquanto isso, a incompetência prolifera.

  3. pedro paixäo on Maio 6th, 2008 12:44

    Caro José,

    obrigado pela tua leitura atenta, certamente mais atenta do que a minha que deixou passar esses erros e inconsistências.

    o caso do Beckett é incrível, pois é um dos autores que mais leio e há mais tempo tendo traduzido todos os seus poemas em françês.

    mas também sabes que os apelidos ingleses podem ser escritos de várias maneiras. No caso do apelido Eliot já o vi escrito de três ou quatro maneiras.

    quanto à equipe de basket tem a sua graça pois também os vi jogar mais de uma vez. um espectáculo incrível.

    quanto às obras de Proust os volumes variam conforme a edição. Na Pleyade é só um ou dois. mais uma vez aqui não sei se estou a escrever bem o título da colecção e não vou verificar quantos são embora os tenha ali no outro quarto. é estranho. não dou, mas talvez devesse dar, importância a isso. e gosto de gralhas. sem gralhas o texto não canta.

    e nunca esqueço a Madamme Bovary que muda de cor de olhos várias vezes e não deixa de ser belíssima.

    eu faço sempre muitos erros ortográficos e outros talvez porque a língua que primeiro aprendi e na qual escrevi não ser o português.

    de qualquer modo muito obrigado. se houver uma segunda edição será corrigida.

    com um abraço,

    pedro

  4. Bibliotecário de Babel – Fair play on Maio 7th, 2008 13:38

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