Feira do Livro de Belgrado 2011

O João Sousa André, leitor antigo deste blogue, esteve na Feira do Livro de Belgrado e enviou-me, com a habitual gentileza, a seguinte reportagem (que desde já agradeço):

Na Feira do Livro de Belgrado que teve lugar de 23 a 30 de Outubro, o convidado de honra foi a Língua Portuguesa. Não Portugal, mas a língua, em múltiplas variantes. Aliás, o simples facto de Mia Couto ter estado presente na abertura da Feira bem o demonstra. A vocação marítima da língua portuguesa foi demonstrada na frase escolhida para simbolizar o convite: «Da minha língua vê-se o mar», de Vergílio Ferreira. Infelizmente o autor não foi um dos escolhidos para tradução nesta iniciativa, mas muitos outros o foram que bem representaram Portugal. A lista de autores de língua portuguesa pode ser encontrada aqui.

O espaço da língua portuguesa estava agradável, construído sob a forma de uma manta de literatura, com passagens de autores de língua portuguesa em português e servo-croata. A encimar o espaço estava o lema, «Uma língua, muitas culturas», e o nome dos países participantes. O espaço tinha diversas cadeiras, mesas e almofadas para quem passasse se poder ir sentando. Num dos lados estava uma longa estante com livros: de língua portuguesa, em português e traduzidos para servo-croata, de autores sérvios para português e até um exemplar (creio que) de Saramago traduzido para castelhano. Noutro dos lados estava uma longa mesa com os autores escolhidos para a edição da feira. Alguns já consagrados e clássicos (Machado de Assis encontrava-se entre eles), enquanto que outros eram mais recentes e participaram no certame. Estes livros foram editados por diversas editoras sérvias, sendo que se encontravam depois também nos espaços próprios das editoras. Note-se que nem todos os autores portugueses traduzidos tinham os seus livros para venda por ali. Dois casos de presença apenas «para amostra» eram Camões (Os Lusíadas) e Miguel Sousa Tavares (Equador). A lista completa de livros traduzidos para o certame está aqui.

No dia em que estive presente, sexta-feira dia 28, tive a oportunidade de ver parte da conversa entre o autor brasileiro Augusto Cury e o público. Augusto Cury falava através do microfone e o seu tradutor (um sérvio com um curioso sotaque brasileiro) fazia o mesmo. A conversa denotava alguma falta de conhecimento da obra do autor, com muitas das questões a serem algo genéricas (“qual a sua musa?”, “quando começou a escrever?”), mas sempre em ambiente de descontracção e simpatia. Também surgiram outras sessões com a presença dos autores, mas não necessariamente no stand do convidado de honra, antes no das suas editoras na Sérvia.

O programa contou ainda com algumas iniciativas interessantes, não necessariamente apenas no recinto da Feira. Algumas delas:
– Domingo dia 23 (dia de abertura), o Centar za kulturnu dekontaminaciju (Centro para a descontaminação cultural) projectou o filme O Banqueiro Anarquista, de Eduardo Geada, seguido de uma discussão.
– Quarta-Feira, dia 26, leitura pública do livro Portugal, terra verde, de Ivo Andrić (autor jugoslavo, prémio Nobel em 1961 e que escreveu o referido livro sobre as suas viagens em Portugal).
– Quinta-Feira, discussão sobre o Teatro Moderno Português.
– Sexta-Feira, transmissão radiofónica dos textos Outono em Lisboa, a partir de uma compilação de trabalhos de Fernando Pessoa e heterónimos.
– Sábado, conversa aberta a partir dos textos de Álvaro Guerra (antigo embaixador em Belgrado) reunidos em Crónicas Jugoslavas. Participação de Pedro Rosa Mendes e Aleksandar Gatalica, antigo editor do diário cultural Hoje.
– Exposição permanente durante a Feira: Viagem a Portugal, Terra Verde. Exposição fotográfica de Dragoljub Zamurović com base nos textos Viagem a Portugal, de José Saramago, e Portugal, Terra Verde, de Ivo Andrić.

Fiz referência apenas a eventos relacionados com Portugal, mas outros países estiveram bastante presentes, com bastantes lançamentos de livros de autores angolanos e com o Brasil a promover workshops para crianças. O programa completo de eventos pode ser lido aqui, infelizmente apenas em servo-croata.

De referir que este foi o ano do 50.º aniversário da entrega do Prémio Nobel a Ivo Andrić, o mais celebrado autor de língua servo-croata. Por todos os stands os livros deste autor estavam bastante presentes com novas edições, desde o formato de livro de bolso às edições de coleccionador. Em Portugal, podem ser encontrados três livros de Andrić editados pela Cavalo de Ferro: Crónicas de Travnik, O Pátio Maldito e A Ponte sobre o Drina (este o seu romance mais celebrado). É notório que numa efeméride destas, Portugal tenha acabado por receber tanta atenção.

Para mais referência em relação à Feira do Livro de Belgrado, leia-se a página oficial do certame (em servo-croata, inglês e português) ou estes meus dois posts de há dois anos (I, II).



Comentários

4 Responses to “Feira do Livro de Belgrado 2011”

  1. André Benjamim on Novembro 8th, 2011 20:47

    Sobre esta Feira, li este post: http://wwwdejanito.blogspot.com/2011/11/lingua-portuguesa-em-belgrado.html que julgo que vale a pena partilhar.

  2. João André on Novembro 9th, 2011 7:57

    Caro André, esse é mais um interessante testemunho da feira. Percebo que os jornais não cubram todos os eventos, mas é pena que não tenham ligado a este. Valham os blogues para compensar essas lacunas.

  3. Pinguim on Novembro 9th, 2011 11:30

    Eu sou o autor do blog de que o André fala e estive na Feira do Livro de Belgrado 2011, e por isso publiquei o texto cujo link o André deixou, que tem inclusive duas fotos.
    Se quiseres, passa por lá…
    Abraço.

  4. csd on Novembro 9th, 2011 12:53

    Isso sim, é uma verdadeira feira do livro e de trocas culturais.

    estou cheia de inveja…

    😀

    csd

«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges