Feira do Livro de Lisboa (balanço final)

Apesar dos grandes apertos económicos que os portugueses enfrentam, ou talvez por causa deles, a Feira do Livro de Lisboa, cuja 81.ª edição terminou no dia 15, resistiu bem ao cenário de crise. «Pelos nossos cálculos, baseados em estimativas, terão passado pelo Parque Eduardo VII cerca de 350 mil pessoas, mais 50 mil do que no ano passado», adiantou Miguel Freitas da Costa, director da Feira. Na ausência de dados fornecidos pelas editoras quanto aos montantes facturados, a organização da APEL (Associação Portuguesa de Editores e Livreiros) mostra-se incapaz de fazer um balanço comercial, mas «das conversas que mantive com vários participantes fico com a impressão de que o volume de negócios foi sensivelmente igual ao de 2010», explica Freitas da Costa. «Sei que alguns editores tiveram quebras, mas outros aumentaram as vendas, pelo que no cômputo geral a situação não se alterou; nem para melhor, nem – felizmente – para pior.»
Entre os participantes com aumento das vendas está o grupo Porto Editora, que integrou pela primeira vez todas as suas chancelas – nomeadamente as da Bertrand/Círculo – num modelo de «praça», a repetir na Feira do Livro do Porto (entre 26 de Maio e 12 de Junho, na Avenida dos Aliados). Segundo Paulo Gonçalves, «os resultados foram muito positivos, com um crescimento na ordem dos 10%, em comparação com o período homólogo do ano passado». Recorde-se que em 2010 a Feira foi prolongada uma semana, devido ao mau tempo – um problema que também se colocou no primeiro fim-de-semana desta edição, mas não ao ponto de suscitar outro prolongamento. Paulo Gonçalves destaca ainda a importância da iniciativa Hora H, em que os descontos chegavam aos 70%: «Funcionou muitíssimo bem.»
No caso da LeYa, os primeiros números apontam para vendas semelhantes às de 2010. Ainda assim, José Menezes, director de comunicação do grupo, garante que o «balanço é positivo». Não só porque a animação cultural (com debates, concertos de jazz e a presença de quase 200 escritores) «foi um sucesso», mas porque se registou «uma maior procura por autores de língua portuguesa do que por autores estrangeiros, o que, estamos em crer, está também relacionado com os muitos autores lusófonos que estiveram em sessões de autógrafos na Praça LeYa».
Fora da lógica dos grandes grupos, a Assírio & Alvim não tem grandes razões de queixa, para além de uns quantos livros que ficaram destruídos quando a chuva entrou nos pavilhões, logo nos primeiros dias. «Comparando com o período homólogo, tivemos vendas semelhantes às do ano passado», avança Vasco David. O mesmo não pode dizer Cláudia Moura, da Livros Horizonte, que assinala uma quebra enorme (24%), depois de em 2010 ter crescido 30%. Como responsável pelo desastre aponta o túnel da Babel, uma «barreira preta» erguida diante dos seus pavilhões e que terá absorvido a maioria dos visitantes que entravam na Feira vindos do Marquês de Pombal. David Ferreira, da Babel, grupo que conseguiu vendas acima das expectativas (mesmo levando em conta o facto de ter aumentado a área, de quatro pavilhões para o equivalente a dez), mostra-se surpreendido com os efeitos secundários negativos de que se queixa Cláudia Moura: «Até agora, não soubemos de nada. Se isso se verificou, é evidente que não ficamos satisfeitos. Mas essa questão será certamente discutida em sede própria, numa das próximas reuniões da APEL.»

[Texto publicado no suplemento Actual, do semanário Expresso]



Comentários

4 Responses to “Feira do Livro de Lisboa (balanço final)”

  1. lalalala on Maio 25th, 2011 0:25

    “Até agora, não soubemos de nada. Se isso se verificou, é evidente que não ficamos satisfeitos. Mas essa questão será certamente discutida em sede própria, numa das próximas reuniões da APEL”

    Pois, a Babel vai dizer ao Presidente da Babel, numa reunião da APEL, que a Babel prejudicou as vendas de um concorrente. E a carochinha vai casar com o João Ratão, e Palhaço vai com o avozinho ao circo.

  2. MCS on Maio 25th, 2011 0:39

    “Mas essa questão será certamente discutida em sede própria, numa das próximas reuniões da APEL.” Isto em português quer dizer, “manda pró tecto”.
    Esta obsessão tuga pelas reuniões… **da-se!
    Não ficou à vista de todos que o túnel babélico “enterrou” os pavilhões em frente? Arre… basta o raio de uma fotografia e pronto. Reunião para quê? A Babel paga os custos da Livros Horizonte na feira e, como compensação, para o ano a Babel faz um túnel subterrâneo. Sempre pode convidar um dos mineiros chilenos e lançar um livro de memórias.

  3. Miguel on Maio 29th, 2011 10:10

    …do balanço a norte, da feira do livro do Porto.

    O balanço negativo mantêm-se, dos grandes grupos livreiros, abafarem o recinto e a circulação para o resto dos expositores.

    Do positivo, parece, como habitualmente, ficar restringido a Lisboa. A feira do Porto, apesar de se localizar no concelho com mais desempregados do país, parece viver um pouco da ressaca lisboeta, em que acabou a hora H. (nem se ouve falar, tabu) . Nem todas as editoras presentes fazem livro do dia, e o site da APEL só tem metade da informação nesse sentido. (?)

    De negativo também, é a falta de comparência de algumas editoras, como a Cavalo de Ferro. Não menos assustador é um aparente fim de stock, de alguns artigos, num terceiro dia de feira, em algumas editoras.

    Para o ano, a primeira feira, podia ser no Porto.

    Um abraço José Mário.

  4. George Sand on Maio 30th, 2011 14:02

    Tirem-nos tudo, mas deixem-nos pelo menos sonhar…os livros sõ essenciais para isso.
    Gostei muito do efeito borboleta versão brasileira.

«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges