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Foi há 105 anos

Um certo senhor (chamado Leopold Bloom) passeou por Dublin, a idolátrica, o seu esplendor. Sobre essa jornada digna de herói homérico, James Joyce disse o que havia a dizer e explicou tudo muito bem explicadinho, aqui.



Comentários

9 Responses to “Foi há 105 anos”

  1. Pedro Sousa on Junho 16th, 2009 17:52

    Que tradução portuguesa recomendam (JMS e restantes visitantes)?

    Possuo a edição da Difel (traduzida por António Houaiss, salvo erro), e não desbravei mais do que 100 páginas — provavelmente por minha culpa, e não do livro ou da tradução.

    Em todo o caso, gostaria de ouvir opiniões sobre as várias traduções desta obra que existem no mercado português (creio que existirão pelo menos duas).

    • Maria Almira Soares on Junho 16th, 2009 20:18

      BLOOMSDAY

      Foi aqui que tudo começou:

      Ὁμήρου Ὀδύσσεια
      Ραψωδία α’

      ἄνδρα μοι ἔννεπε, μοῦσα, πολύτροπον, ὃς μάλα πολλὰ
      πλάγχθη, ἐπεὶ Τροίης ἱερὸν πτολίεθρον ἔπερσεν·
      πολλῶν δ᾽ ἀνθρώπων ἴδεν ἄστεα καὶ νόον ἔγνω,
      πολλὰ δ᾽ ὅ γ᾽ ἐν πόντῳ πάθεν ἄλγεα ὃν κατὰ θυμόν,
      ἀρνύμενος ἥν τε ψυχὴν καὶ νόστον ἑταίρων.
      ἀλλ᾽ οὐδ᾽ ὣς ἑτάρους ἐρρύσατο, ἱέμενός περ·
      αὐτῶν γὰρ σφετέρῃσιν ἀτασθαλίῃσιν ὄλοντο,
      νήπιοι, οἳ κατὰ βοῦς Ὑπερίονος Ἠελίοιο
      ἤσθιον· αὐτὰρ ὁ τοῖσιν ἀφείλετο νόστιμον ἦμαρ.
      τῶν ἁμόθεν γε, θεά, θύγατερ Διός, εἰπὲ καὶ ἡμῖν.

      HOMERO, ODISSEIA
      CANTO I

      Fala-me, Musa, do homem astuto que tanto vagueou,
      depois que de Tróia destruiu a cidadela sagrada.
      Muitos foram os povos cujas cidades observou,
      cujos espíritos conheceu; e foram muitos no mar
      os sofrimentos por que passou para salvar a vida,
      para conseguir o retorno dos companheiros a suas casa.
      Mas eles, embora o quisesse, não logrou salvar.
      Não, pereceram devido à sua loucura,
      insensatos, que devoraram o gado sagrado de Hipérion,
      o Sol — e assim lhes negou o deus o dia do retorno.
      Destas coisas fala-nos agora, ó deusa, filha de Zeus.

      (Tradução de Frederico Lourenço)

      • afonso on Junho 16th, 2009 20:40

        Caro Pedro Sousa,

        Existem duas traduções para o português editadas em Portugal:

        a) a do João Palma Ferreira, Livros do Brasil

        e

        b) a do Houaiss – português do Brasil – que será a melhor. Eu tenho esta versão, sendo que é a versão agora reeditada pela Difel e parece-me muito bem.

        Quanto ao não ter passado das 100 páginas… Haverá alguém que tenha lido o Ulisses até ao fim? Ainda mais: haverá alguém que tenha lido o Ulisses até ao fim sem interrupções prolongadas e outras leituras pelo meio?

        Boas leituras a todos.

        • Alexandre Andrade on Junho 16th, 2009 20:43

          A de João Palma Ferreira é boa. Mas nada se compara ao original, e isto é mais estrondosamente verdadeiro neste caso do quem em quase todas as demais obras-primas da literatura.

          • José Mário Silva on Junho 16th, 2009 21:26

            Concordo com o Alexandre.
            Não conheço a versão do Houaiss, mas a do João Palma Ferreira parece-me aceitável. O verdadeiro problema de ‘Ulysses’ é este: seria necessário encontrar um James Joyce português (simile do outro, com os óculos redondos, o chapéu de lado e Dublin a correr-lhe nas veias) para conseguir transpor ‘aquilo’ para a nossa língua.
            Como James Joyce só houve um, e não consta que falasse o idioma de Camões, todas as aproximações são necessariamente precárias.
            O ideal é mesmo ler em inglês, mas eu já tentei uma vez e parti os dentes (é uma forma de dizer) logo ao fim de meia dúzia de páginas.

            • afonso on Junho 16th, 2009 22:54

              Então e sempre podemos falar do Finnegans Wake que, para mim, ainda é mais “ilegível” do que o Ulysses. Se não me engano há uma tradução brasileira, mas, por opção do próprio tradutor, uma tradução muito criativa… Já tentei ler aquilo em inglês e não deu… Com muito pena minha e algum sacrifício que tentei impor à tarefa.

              É por isso que o Jorge Luis Borges, pretenso tradutor de Joyce, não deixa de ter razão quanto a uma coisa (espero que isto dê discussão): será que Joyce foi um grande escritor? Não terá o Joyce, pelo seu vanguardismo/experimentalismo, falhado o propósito comunicacional da literatura? Terá Joyce sido um grande escritor?

              • José Mário Silva on Junho 17th, 2009 10:39

                afonso,

                Se Joyce foi um grande escritor? Caramba, neste caso ‘grande’ é um adjectivo pequeno. Joyce foi um escritor enorme, um gigante, um monstro, uma daquelas raras charneiras que mudam efectivamente o rumo da história da literatura. Sem ele, sem a sua machadada final no realismo oitocentista, a literatura do século XX não teria sido o que foi. Joyce foi até lá ao fundo, ao limite dos limites. Mais do que abrir portas ou janelas, mostrou que a casa talvez seja infinita (como Borges, aliás, também percebeu).
                Quanto ao “propósito comunicacional da literatura”, gostava que explicasses um pouco melhor o que isso é. E já agora, não conheço texto que “comunique” de forma mais intensa e emocionalmente devastadora com o leitor do que o conto final do livro Dubliners: The Dead.

                • afonso on Junho 17th, 2009 11:27

                  José Mário Silva,

                  Há que fazer um reparo: na minha opinião o Joyce foi – é – dos maiores escritores de todos os tempos. Tem uma obra completamente inovadora – stream of counsciousness/monólogo interior, o Ulisses que tem várias formas de narrativa – que não conhece paralelo; será daqueles escritores que influenciam todos os autores contemporâneos, mas que ninguém consegue imitar… Outros grandes escritores – lembro-me do Faulkner – deixaram uma espécie de escola (António Lobo Antunes). O Joyce deixa escola, mas a escola do Joyce é a possibilidade infinita, inegualável, irreproduzível da própria literatura.

                  Quanto à capacidade comunicacional da literatura: para mim não uma comunicação determinística da literatura (não acredito nisso). Há, sim, e para alguns, aquela ideia castradora de que a literatura tem de veicular uma moral, uma lição, uma ideia geral que se apodera do escritor, da obra e, finalmente, do leitor. Ora, isto para mim é possível, mas em regime diferenciado. Cada leitor é um leitor, ou vamos começar a tentar agrupar tudo o que nos diz o Herberto? Não dá, nem é suposto dar. É por isso que, mais uma vez quanto a mim, a literatura é sim uma fonte de conhecimento, mas de um conhecimento incatalogável, indeterminável. E é isso que desde sempre causa celeuma…

                  Nós sabemos que é conhecimento – e comunicação – só não sabemos explicar porquê.

                  • António on Junho 17th, 2009 11:51

                    Um dos propósitos da literatura pode ser comunicacional (num sentido veicular amoral), mas isso não reclama uma execução forçosamente acessível. Basta que seja geradora de reflexão, e o facto de ainda hoje comemoramos o Bloomsday, desfiando interpretações blogosféricas sobre Ulysses, demonstra que Joyce conseguiu instigar o nosso pensamento e lançá-lo num determinado sentido.

                    O meu primeiro encontro com Ulysses foi através da recomendável tradução da Livros do Brasil. Quando dei o salto para o monolítico original, rapidamente se tornou evidente que Joyce descobrira novas essências no seu idioma. Simplificando a coisa: Joyce emprega as palavras de um modo até então impensado – mas não impensável – alcançando por vezes uma voz narrativa muito directa, quase meta-cognitiva. Pura sinestesia: tive a sensação que as palavras me trespassavam, sem impedimento ou intermediário.

                    Paradoxalmente, é preciso superar a densidade do texto.

                    Na imagem feliz do José Mário Silva, seria preciso encontrar alguém que soubesse manejar a língua portuguesa da mesma forma. Preservar intocada a mestria de Joyce é irrealista (seria preciso escolher, no texto, outros pontos mais permeáveis à nossa língua e tentar fazer com eles o mesmo). Acabaríamos com um romance muito diferente, indiciador de um outro tipo de consciência e identidade (e Ulysses não deixa dúvidas que se trata também de uma homenagem contemporânea a uma confluência de identidades e culturas de que nós – ainda que nesta península – seguramente comungamos).

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