Fragmento de um poema longo de Nuno Dempster
(…)
Sem dúvida, o hotel é
um paquete que se afunda.
Nada tem do que vi ou amo.
No canal dezasseis,
o Benfica ganhou por dois zero.
Portugueses exultam lá longe,
exultam com pouco,
e Londres inteira parece ter-se evolado.
A alegria da manhã vibrará,
estou certo,
a luz avivará as cores do Norte
e os raios de sol serão
cordas de guitarra eléctrica,
e hei-de ir de Yellow Submarine
pela Oxford Street e gritar:
«Escutem, Londres não é nada disso.
Bem poderiam ficar nas vossas cidades.
O que buscam é igual em toda a parte.»
E logo ecoarem insultos em esperanto,
agredirem-me com o desprezo de quem não vive
e, sabida a aventura no Yellow Submarine,
zangarem-se os amigos que adoram ir aos saldos,
aos saldos de fim de ano na Oxford Street,
e então, diplomata, eu convidá-los
para uma minuciosa visita ao Harrod’s
e aí fazermos as pazes
com meio pint de Guiness,
tirado lentamente como é da praxe.
Mas já Nelson está a olhar para sul,
a mirar-se na própria morte.
À uma e trinta da tarde,
lá onde o mundo dos gregos acabava,
nem Hércules lhe valeu.
À uma e trinta da tarde,
faltam três horas para a batalh
à uma e trinta da tarde,
o almirante vai morrer de novo
e ver-se a si mesmo
tombar na popa do Victory,
e os turistas nem darão conta,
nem os meus amigos,
nem as pombas se assustarão,
nem os leões de bronze hão-de levantar-se,
e eu estou em Trafalgar Square
e não quero saber as razões últimas de tal guerra,
senão do rasto que o Corso deixou
nos túmulos violados do meu país,
e nas igrejas brancas,
e nas mulheres minhas maiores,
factos que lembro por dever de raiva,
essa raiva de ter nascido
para tão grande imperfeição
e não ter mais nada,
salvo este grito que me abafa.
Oh, deixai que os navios combatam.
De quanto sangue,
de quantas vidas,
de quantos sonhos degolados é feito
o caminho que em Londres encontrei
e sabia existir,
mas não em toda a sua escura,
exaltante extensão.
Logo, ao cair da tarde,
irei de novo mergulhar em Piccadilly Circus.
Provavelmente,
beberei ainda mais cerveja do que ontem.
A descoberta da humanidade
é um acto cansativo e doloroso,
e a lucidez não serve de nada,
excepto para morrermos
todos os dias pelos outros.
(…)
[in Londres, &Etc, 2010]
Comentários
One Response to “Fragmento de um poema longo de Nuno Dempster”
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Obrigado pela leitura e pela paciência de tamanha cópia. Julgo que sucede a todos parecerem os poemas melhor não só em livro, mas também lidos em “casa” de outros. Um abraço.