Franzen vs. Rushdie

Jonathan Franzen, um dos mais celebrados romancistas norte-americanos dos nossos dias, acaba de lançar as suas traduções anotadas de alguns ensaios fundamentais de Karl Kraus (The Kraus Project, na Farrar, Straus and Giroux). Ora acontece que Franzen vê nas diatribes que o satirista vienense publicava, no início do século XX, contra a tecnologia desumanizadora e o consumismo capitalista, um rasgo visionário que se pode aplicar ao estado do mundo actual, em as pessoas vivem em função dos seus perfis no Facebook e escravizadas pelos smartphones. Entre as muitas farpas lançadas em várias direcções, o autor de Liberdade (D. Quixote) escreveu que Jeff Bezos, o criador da Amazon, «pode não ser o anti-Cristo, mas assemelha-se muito a um dos quatro cavaleiros do Apocalipse» e lamentou que um escritor com o estatuto de Salman Rushdie tenha «sucumbido» à febre do Twitter. Previsivelmente, a internet em peso caiu-lhe em cima, com bloggers a chamarem-lhe de «ludita» e snob para baixo. Fleumático, Rushdie respondeu à longa prosa de Franzen (pré-publicada pelo Guardian) com os poucos caracteres de um tweet: «pois que faça bom proveito da sua torre de marfim».



Comentários

2 Responses to “Franzen vs. Rushdie”

  1. Carriço on Setembro 27th, 2013 12:23

    Eu, que já tive oportunidade de admirar (porque foi admirado que fiquei) dois belíssimos livros de Franzen, vejo-me, à força de um tweet, empurrado para a prosa de Rushdie. Quem escreve assim com a limitação de 140 caracteres (e não perde elegância), terá muito para oferecer em página inteira, calculo!

  2. Pedro Schacht Pereira on Outubro 2nd, 2013 0:57

    Caro José Mário Silva,
    Por muito que eu abomine as redes sociais (continuo a resistir ao Facebook, por exemplo), não me atrevo a condenar aqueles que as cultivam, com menor ou maior entusiasmo. E vejo-me obrigado a concordar com Rushdie: adivinhe onde eu comprei “The Kraus Project”? Na Amazon, pois claro. Aqui nos EUA são muito poucos aqueles que podem recorrer a uma livraria tradicional, todas elas desapareceram há muito, excetuando em cidades como Nova Iorque (onde a Strand ainda sobrevive), São Francisco (City Lights), e poucas mais. De quem vê Jeff Bezzos em tons bíblicos, seria de esperar um pouco mais de consistência ideológica.

«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges