Furtiva alegria

Coisas Que Nunca
Autora: Inês Lourenço
Editora: &Etc
N.º de páginas: 56
ISBN: 978-989-8150-25-7
Ano de publicação: 2010

Autora de uma obra razoavelmente extensa mas insuficientemente conhecida, Inês Lourenço vem construindo desde os anos 80 uma poética da discrição, capaz de resgatar a beleza das coisas ameaçadas pelo tempo (objectos, memórias, cidades, animais domésticos, a própria linguagem) mas também de criticar, com sarcasmo e ironia, os rumos tortos que leva este nosso mundo.
É uma poesia que não se põe em bicos dos pés, uma poesia feita com «palavras / de todas as horas», sem alarde, longe de «hemorragias órficas» e outras pretensões ao sublime – qualidades que reencontramos em Coisas que Nunca, o seu nono livro. Ao círculo perfeitinho, Inês Lourenço prefere o ângulo agudo, consciente de que o ar que respiramos tanto «invade docemente as altas / narinas» como «desce democraticamente / às saídas menos nobres».
Esta ideia de contiguidade entre o que é suposto ser elevado e o que é suposto ser grosseiro aparece de forma ainda mais explícita, sublinhada pelo tom satírico, no poema que compara dois tipos de mulheres que não usam cuecas: de um lado, as que noutros tempos, de canastra à cabeça e pernas afastadas, «mijavam de pé»; do outro, uma sofisticada modelo da Vogue e seu «profundo decote dorsal». São as «coincidências / da baixa plebe / e da alta-costura», remata a poeta, que estende o olhar sociológico – não isento de uma certa melancolia – ao desaparecimento do canto na vida quotidiana, à hereditariedade dos insultos, ao declínio da renda de bilros ou à imposição das lógicas sazonais («Era tudo “de verão”: / as roupas, as casas, os livros, / as canções, os amores, os raios / ultra-violeta, / o cancro de pele»).
Como se sugere em Recado a um Jovem Poeta, para enfrentar a realidade actual é talvez necessário ter a «lucidez / do (…) desconforto» (o novo Castelo de Duíno, se existir nesta época pouco rilkeana, fica num «terceiro andar, sem ascensor»). Ainda assim, Inês Lourenço consegue intuir a «furtiva alegria», que surge quando menos se espera, ou lembrar o que merece ser lembrado: um rio em S. Petersburgo, uma gata preta e branca, livros (esses «audazes amigos»), a vontade infantil de «morder com justa causa / tanta gente». Quanto à escrita, ela é um corpo em aberto, sempre sujeito à violência do corte e da depuração. Veja-se a arte poética da página 19:

Fender os versos
com a lâmina implacável do
tempo. No umbigo do poema cravar
o sabre rente às vísceras dos verbos,
à linfa dos adjectivos. Despedaçar
os músculos dos sentidos. Abrir
a rede viária do sangue. Romper
a velha epiderme.

Avaliação: 8/10

[Texto publicado no número 95 da revista Ler]



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«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges