Génese de um poema
Na terça-feira, ao chegar a Campanhã, fechei o livro que vinha a ler no comboio e ao guardá-lo na minha mala aconteceu uma coisa estranha. Um dos fechos partiu-se, assumindo um improvável e impraticável ângulo de 35º. A minha primeira reacção foi de melancólico desamparo. A mala esteve vários anos num canto da casa, sem ser utilizada, e de repente claudica, justamente quando decidi resgatá-la ao pó e ao olvido. Entre a chegada da francesinha e o pedido do cimbalino, num café perto da estação, alinhavei um poema about it. E foi esse o primeiro poema que li no debate da Festa da Poesia, em Matosinhos, exibindo sobre os joelhos a prova física do que os versos descrevem:
fecho
Ao sair do comboio,
o fecho prateado
da mala de couro
partiu-se.
Agora parece um osso
fora do sítio,
uma fractura exposta
em ângulo esquisito,
prova infame de uma
tragédia ortopédica.
Ignoro o que partiu o fecho:
se eu (gauche na vida),
se a viagem (aquela
subtil trepidação sobre
os carris), se outra
força qualquer.
Do mal o menos: mesmo
inválida, a mala de couro
fecha-se melhor
do que este poema.
Comentários
2 Responses to “Génese de um poema”
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Tirou um papelinho do bolso para ler…mas ainda não era aquele. Tirou outro, e esse sim, era o do poema sobre a o fecho da mala.
Lembro-me ainda de tê-lo visto a ouvir atentamente quem recitava poemas de Jorge de Sena ao som do piano. Fez menção à quantidade de pessoas presentes naquela “Festa da Poesia”.
Eu estava lá. Levei comigo a Luz Indecisa, mas fiquei-me por ouvi-lo.
Foi um prazer conhecê-lo.
Cumprimentos
Fernanda