Gestos

Não é a primeira vez que acontece.
Primeiro, sinto uma misteriosa empatia com um determinado autor. Depois, à medida que o leio, passo o tempo a dizer: «quem me dera ter escrito isto». Há ali um comprimento de onda qualquer que partilhamos. Finalmente, vem o mais estranho de tudo: eu não só gostava de ter escrito aquilo, como na verdade já escrevi aquilo (ou algo muito próximo daquilo; para pior, claro). É como se já houvesse da parte dele uma influência sobre mim (ou uma contaminação, uma simbiose, uma confluência, não sei bem), mesmo antes da primeira leitura.
Um exemplo.
Ao descobrir esta semana as Prosas Apátridas, de Julio Ramón Ribeyro (Ahab), deparei com o fragmento 188:

«As palavras que calámos eram as que devíamos ter dito. Os gestos que refreámos por pudor eram os que devíamos ter feito. Os actos que nos pareciam triviais eram os que se esperavam de nós. Outros fizeram-nos em nosso lugar. Paguemos agora as consequências.»

Espera lá, disse para comigo. Eu escrevi algures uma coisa muito parecida com esta. Fui à estante, para confirmar. E na segunda parte do livro Luz Indecisa, lá estava o poema explicatio:

O gesto mais simples,
capaz de ordenar tudo,
foi o que não fizemos.



Comentários

2 Responses to “Gestos”

  1. pedro on Abril 29th, 2011 18:35

    O William Gaddis em relação ao Walter Benjamin – assumido pelo próprio autor.

    Os cromos quase todos (Kafka, Musil, Broch) em relação ao Walser.

    Eu em relação ao G.M.T.

    C’est la vie, ou como se diz em inglês, shit happens, ou como se diz em português, é f*****.

    Abraço,
    pedro

  2. Amélia Couto on Abril 30th, 2011 14:30

    É que tem tudo a ver mesmo. Chapadinho

«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges